Minhas leituras: Até que a culpa nos separe


Aparência e essência.


Terminei mais uma leitura no Clube Nuvem Literária e, inspirada pela leitura acelerada que fiz do livro, vim retomar as resenhas aqui do blog (espero conseguir seguir numa constante com as resenhas). 

Boa parte do meu ânimo em ler esse livro veio da recente maratona que fiz da série Big Little Lies (baseado no livro Pequenas Grandes Mentiras, da mesma autora Liane Moriarty). Pretendo fazer essa leitura ainda esse ano, e fazer o comparativo do livro com a série. 

O grande apelo desse livro pode ser a descoberta do que realmente aconteceu nesse churrasco que mudou as vidas de três casais (e mais uma pessoa, a ser revelado no decorrer da leitura): Clementine e Sam, Erika e Oliver e Tiffany e Vid. Mas, dada a análise que comecei a fazer no começo da leitura no twitter, vi que a força de Até que a culpa nos separe está no desenvolvimento que a autora coloca em seus personagens, a ponto de vermos essas seis pessoas totalmente diferentes ao final da história. 

Esses seis personagens principais não são exatamente os que inspiram mais simpatia. Nesse ponto, vejo Clementine como a pessoa que mais me deixou irritada no decorrer da história, por se colocar de tal forma como se coloque como uma pessoa tão certa (superando inclusive a necessidade patológica de controle que Erika possui). Então é difícil engrenar de cara na leitura, sendo bem difícil se apegar a qualquer um deles. No decorrer das páginas começamos a ver para além de cada uma dessas pessoas, entendendo mais camadas e as motivações e dúvidas que motivam cada um deles. 

E isso vem bem de encontro com as visões que os seis personagens tem uns dos outros. A gente consegue perceber como eles, assim como nós, são rápidos numa rotulação mútua, inclusive dentro dos casais. É uma confusão entre a aparência e a essência de cada um, que vai formando uma série de equívocos e desentendimentos. 

Nessa progressiva de entendermos todos os acontecimentos do tal comentado churrasco é que montamos o quebra-cabeças tanto desse dia como de cada um dos seis envolvidos. A certo ponto fica fácil entender o fato principal, e isso pode desanimar um pouco a leitura. Mas é importante persistir, não só para descobrir o todo como para entender cada personagem na totalidade. 

Até que a culpa nos separe traz alguns debates importantes, como as noções de maternidade, passando inclusive pela questão da escolha, diálogos dentro do casamento, estresse pós-traumático e acumuladores. Esse último assunto vem nos provocar para o quanto nós o conhecemos pelo senso comum versus a realidade das pessoas que sofrem com esse transtorno e seus familiares. Uma abordagem bem interessante da autora. 

A narrativa da autora acontece em terceira pessoa, alternando entre cada um dos seis personagens. Em alguns poucos capítulos temos narrativas de personagens diferentes, que trazem perspectivas interessantes para o fechamento da história. Liane tbm alterna entre o dia do churrasco e a narrativa atual, cerca de dois meses depois do acontecimento do churrasco, o que lança um olhar amplo e progressivo na montagem dos vários quebra-cabeças presentes na trama. 

Além disso, vemos um interessante uso de elementos externos como parte da narrativa. Uma das partes principais é a chuva contínua, que é parte integrante do estado psicológico e emocional de cada um dos personagens, e que começa a se dispersar apenas quando cada um deles vai buscando uma resolução para seus próprios conflitos internos. É um uso muito inteligente dessas metáforas, que até nos faz entender como os personagens se sentem em cada um dos momentos. 

Foi uma primeira leitura bem interessante da autora e me deixou curiosa para conhecer mais livros dela. 


Título: Até que a culpa nos separe
Autor (a):  Liane Moriarty
Tradução: Julia Sobral Campos
Publicação: 2017
Páginas: 464
Editora: Intrínseca

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