Minhas leituras: O Jardim Secreto


O Jardim Secreto e aquela história da Sessão da Tarde.

Quem da minha geração não mergulhou nesse filme que passava constantemente nas tardes, depois que a gente chegava da escola (e acho que vi pela primeira vez em DVD)? Então, quando o livro foi selecionado no Clube Nuvem Literária de Dezembro, senti aquele cheirinho de infância invadir a minha casa novamente, debruçando-me na leitura desse clássico.

E é interessante pensar em como a nossa mente nos engana com o passar do tempo, reforçando aquela questão de que a memória se modifica junto com a gente, deixando de ser um ponto fixo em nossa linha do tempo pessoal. Lembrava claramente da antipatia de Colin, o primo adoentado de Mary Lennox, que acaba passando por uma transformação na segunda metade da história. Mas fui pega de surpresa ao perceber que a própria protagonista possuía uma personalidade ácida e no mínimo de atingir os nervos de qualquer um. Isso não é algo que a gente encontre com frequência em livros do começo do século XX. Embora, dentro da análise do enredo e do propósito moralizante da história, encaixa como uma luva. 

A intencionalidade de O Jardim Secreto revela o seu público alvo (infantil) e as lições que quer passar (mansidão de caráter, humildade.). Além disso, há aquela mensagem bonitinha de amizade e superação das limitações, que permeia a história inteira e dá aquele toque que aquece o coração de todo mundo. No entanto, existem ali e aqui alguns aspectos que são pincelados no decorrer das páginas e que dão aquela secadinha na garganta. 

Uma das primeiras questões que podemos parar para analisar é a idealização da figura da mulher/mãe no decorrer da história. A referência é a mãe de Mary, que prefere as festas à filha, deixando a criação da pequena (e os mimos) para as aias, constantemente maltratadas pela menina. E essa mãe ausente que justamente deixa a marca de personalidade desviante na nossa protagonista. 

No decorrer do livro encontramos outros dois exemplos que acabam reforçando os defeitos da primeira mãe. Temos a mãe de Martha e Dickon que, mesmo diante de toda a pobreza descrita, é presente na criação de todas as suas crianças, sendo aquela figura moral e ideal de maternidade, gerando pessoas incríveis e fundamentais na correção do caráter da protagonista e de Colin (que, em certa medida, acaba se tornando o centro das ações na reta final do livro). Também temos a apresentação da mãe morta, que é justamente a mãe de Colin, uma figura que é praticamente santificada e, nas entrelinhas, colocada como uma mãe ideal, ainda que nunca tenha tido a oportunidade de "exercer" a função. 

Essas três figuras maternas são as definidoras dos caráteres das respectivas crianças da história. Elas são as responsáveis, por mais que nos casos de Mary e Colin tenhamos figuras masculinas ausentes e que podem e devem ter influenciado na formação dessas pessoinhas. Inclusive, Archibald Craven é perdoado de um modo tão fácil, tanto pelo filho como pela sobrinha, que juro que fiquei procurando por alguma parte perdida no livro. 

Claro que aqui estamos falando de um pensamento dominante na época e que denuncia o momento em que esse livro foi escrito. Porém, considero importante que se faça esse tipo de observação na história, afinal estamos em tempos em que os papéis de gênero estão sendo discutidos com um afinco que demanda a nossa atenção. 

Outra coisa interessante de se perceber é como a história acaba perdendo fôlego na reta final do livro, a partir de uma dissolução muito rápida dos conflitos. Em determinado ponto, a grande questão se torna se Mary e Colin vão ou não demonstrar que estão de posse de seu apetite. O próprio título, que sugeria o segredo em torno do tal jardim, acaba se perdendo e não tem assim tanto impacto na resolução do plot central, o que causa uma quebra de expectativa. A partir daí começamos a captar repetições de diálogos e informações que já apareceram antes. 

Além disso (e aqui me lembro de algumas anotações que fiz na resenha de Jane Eyre), podemos captar o tom preconceituoso na história no que diz respeito a lugares e pessoas não europeias. A forma de descrição da Índia, era habitado por Mary antes de ficar orfã, carrega todo aquele tom de excentricidade atribuído na literatura aos países não-europeus. E no decorrer é praticamente jogado em nossa cara como o ar frio da charneca é tão superior para a saúde das crianças, atribuindo a preguiça que Mary tinha ao lugar onde foi criada. Isso sem contar o diálogo racista com Martha. 

Novamente, essas questões são da época, mas precisam ser pontuadas e entendidas, afinal a leitura está sendo feita por nós, contemporâneos, e é necessário que ajustemos essas questões com as ideias que formamos aqui e agora. Como disse no começo, nossa memória não é um ponto fixo e, da mesma forma, nossos pensamentos podem e devem evoluir. 

E, no final das contas, essa é a essência de O Jardim Secreto: a capacidade de evoluir e ganhar motivação para fazer coisas melhores. Isso pode ser através da amizade e do aprendizado. Esse continua a ser o ponto forte dessa história e o que ainda nos comove. 


Título: O Jardim Secreto
Autor (a):  Frances Hodgson Burnett
Tradução: Sonia Moreira
Publicação: 2013
Páginas: 344
Editora: Penguin


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