Minhas leituras: 1984


Aquela recomendação de livro que na verdade serve para lhe tirar o sono.


1984 é um clássico inegável de Orwell, disso todos sabemos. Uma pequena vasculhada em qualquer lista de livros essenciais sempre traz esse título e é difícil escapar da curiosidade que uma das obras mais conhecidas de George Orwell desperta. Demorei cerca de 8 anos para empreender minha leitura definitiva com essas páginas, tendo feito uma primeira tentativa logo que embarquei no meu curso de graduação. Era muito para mim; ainda não estava pronta para a mensagem orwelliana. Precisei de uma base ainda maior para mergulhar e ficar entre o fascínio e o terror provocados pela história de Winston e do mundo assustador imaginado pelo autor. 

Para além da história, que gira nossa cabeça muitas e muitas vezes, até entregar o que é provavelmente o final mais inesperado que a gente poderia imaginar, o universo de Orwell nos impressiona pela precisão dos conceitos que ele desenvolve. Sei que muitos textos mencionam, analisam e destrincham com minuciosidade coisas como Novalíngua, Duplipensar e outras tantas coisas que enriquecem o texto e o pensamento de Orwell, coisas tão complexas que uma leitura não é suficiente para começar a entender. Mas acho que o mais importante de todas essas questões é como elas continuam relevantes, especialmente na realidade atual que nos cerca. 

Antes de entrar nessas questões, é importante nos lembrarmos do contexto em que George Orwell escreveu 1984. O mundo tinha acabado de viver os horrores da Segunda Guerra Mundial, com tudo o que a envolveu, e a caixa de Pandora dos regimes totalitários. O temor de um terceiro conflito mundial, que poderia ter consequências ainda mais desastrosas, criou o clima que circundou toda a Guerra Fria. 

Todos esses elementos estão presentes no texto de George Orwell, especialmente o clima que ele cria, sempre tão sufocante e árido ao mesmo tempo. Não nos vemos capazes de respirar de tão carregado que é o ar. É tudo frio, sufocante e cheio de temor. A ameaça está em cada esquina. 

Dentro desse clima, entendemos o controle exercido pelo Partido na Oceânia, uma das partes dessa divisão de mundo que nos é apresentado e onde se passa as ações de 1984. Controle que não se limita (porém não dispensa) à violência, mas se espalha por todos os aspectos da vida dos cidadãos (pelo menos os que estão mais próximos ao partido, afinal há uma massa, os proletas, que são apenas ignorados), absorvendo cada pequeno detalhe - até os pensamentos. 

É justamente aqui que a vigilância e o controle se tornam mais assustadores. Logo no começo do livro nos deparamos com o protagonista Winston com medo de pensar, temendo virar vítima do Partido. O pensamento é crime - pelo menos o pensamento que não corresponde ao que é considerado aceitável pelo Partido. E todos os mecanismos são utilizados, desde a repressão sexual até modificação e simplificação da linguagem, passando pela mudança de registros históricos, mudando o que as pessoas se lembram - ou guiando o que elas deveriam pensar. 

Essa última parte é justamente a profissão de Winston. Ele precisa alterar registros e dados, apagando rastros da alteração em seguida. Essa é uma das partes mais impressionantes (pelo menos para mim, que trabalho com registros e documentos que fornecem comprovação histórica), por ver a facilidade com que isso acaba acontecendo. De repente as memórias são alteradas, os registros corroboram tais memórias falsificadas e como comprovar que as coisas eram de outra forma, quando tudo aponta para um único caminho? Essa é uma das primeiras perguntas que Winston se faz no livro e, de certa forma, acaba sendo sua catarse final. É possível convencer as pessoas de que dois mais dois são cinco. 

A linguagem também é um importante mecanismo de controle à medida que simplifica a fala. Coisas que parecem mais eficientes mas, na prática, encurtam as possibilidades de raciocínio e desenvolvimento de ideias e argumentações, tornando o ato de pensar mecânico. Esta é uma sociedade controlada, mecânica e pronta para extrair apenas as respostas e as reações que são esperadas das pessoas, como se elas fossem zumbis ou apenas peças de uma engrenagem.  Qualquer outro pensamento se torna um crime de pensamento, ou crimideia. Individualidades são expurgadas e o pensamento coletivo torna-se o único permitido e incentivado. Tudo pelo bem do Partido. 

É também através da linguagem que Orwell apresenta outro conceito perturbador, que é o Duplipensar. O duplipensamento é manter duas crenças contraditórias como válidas. Esse ato, no livro de Orwell, tem o objetivo de desfazer os óbvios contrastes, deixando tudo nebuloso na cabeça das pessoas. Daí vem os lemas que são apresentados no livro: 
Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força;
Tudo isso acaba estruturando mecanismos eficientes, reforçados pela vigilância constante das chamadas teletelas, que são canais oficiais de informação e equipamentos que vigiam as pessoas 24 horas por dia. Ninguém consegue escapar; todos estão debaixo do olhar do Grande Irmão, figura centralizadora que serve para manter todas as pessoas focadas em um único objetivo. Essa figura abstrata, quem ninguém nunca realmente conheceu, é a cola mítica que motiva essa sociedade. As pessoas não podem amar outra coisa ou pessoa, apenas o Grande Irmão, onipresente e ausente ao mesmo tempo. Até por isso as relações são desencorajadas e o único propósito do sexo é a procriação. 

O ódio também é um motor importante nessa sociedade, tal qual a repressão sexual. Aliás, as duas coisas estão ligadas. Controlar a sexualidade das pessoas faz com que elas centralizem toda essa energia no ódio a figuras eleitas pelo Partido. Isso tanto diz respeito aos impérios que estão em contínua guerra contra a Oceânia (Eurásia e Lestásia, de forma alternada), quanto Emmanuel Goldstein, considerado traidor e foragido (cuja existência é colocada em dúvida. Esse ódio é canalizado no Minuto do Ódio, algo virulento e contagiante, que em nossos dias parece mais familiar do que nunca. 

Essa sociedade extremamente controlada ainda tem as demonstrações de violência, que aparecem na parte final do livro e definitivamente não deixam de impressionar e nausear ao leitor. 

Além de toda a genialidade por trás da concepção do livro e da história, algo que deixa qualquer um de queixo caído é como certas coisas desse universo encontram ecos em nossa realidade contemporânea. Muitos chamam de predição, mas particularmente acredito que Orwell tinha uma capacidade de percepção aguçada, além de conseguir condensar críticas em universos muito bem estruturados (vide seu trabalho em A Revolução dos bichos). De qualquer forma, temos diante de nós um livro mais que necessário e que não passa sem deixar marcas, muito menos provocar reflexões intensas. 

Vou deixar aqui um material extra para quem quiser aprofundar um pouco mais sobre esse livro (desnecessário dizer que contém spoilers). Primeiro temos esse vídeo da TV Unifesp, de um programa chamado Literatura Fundamental, que aprofunda conceitos de alguns dos livros mais importantes da literatura mundial. Para quem sabe inglês, também deixo esse e esse vídeo do canal Crash Course (do John Green), que analisa essa obra. E deixem seus comentários, afinal podemos falar muito mais sobre essa obra tão completa. 

Título: 1984
Autor (a): George Orwell
Tradução: Heloisa Jahn e‎ Alexandre Hubner
Publicação: 2009
Páginas: 416
Editora: Companhia das Letras


Um comentário:

  1. 1984 é um livro que vc lê uma vez e NUNCA mais esquece.
    Não apenas pelo o que ele apresenta, mas principalmente pq vc vai lembrar de seu enredo durante seu dia-a-dia.

    Sempre vai rolar algo que vai te fazer parar e pensar "nossa. Isso é muito 1984". Igual fazem com Black Mirror, mas só que politicamente falando.

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