Minhas leituras: Jane Eyre


Eu sou um ser humano livre com uma vontade independente - Jane Eyre. 



Para quem me acompanha no twitter, sabe que comecei a compartilhar um pouco de minhas leituras em tempo real, começando justamente pelo livro de Novembro do Clube Nuvem Literária. Aliás, foi uma bela escolha para começar, não só por ser um livro que me deixou bem motivada nesse compartilhamento como por se tratar de uma obra que eu queria ler faz muito tempo. 

É interessante pensar que mesmo toda a minha preparação para leituras do do século XIX (fiz maratona de Jane Austen em 2016 e reli O morro dos ventos uivantes no ano passado) não me preparou para o que encontrei aqui (o que me faz pensar que não podemos menosprezar de forma alguma a leitura dos chamados livros clássicos). Inclusive, ler muito Jane Austen acaba colocando um tipo de fórmula em nossa mente, como se fosse algo obrigatório para as autoras desse período. Emily Brontë já tinha modificado minha impressão ao apresentar um protagonista tão cheio de falhas (tal qual todos os personagens de seu livro), trazendo o trope do herói byroniano. Agora sua irmã Charlotte me deixou de queixo caído com uma personagem tão ativa para sua época como Jane Eyre. 

A personagem protagonista apresenta, logo no início, o livro que estamos lendo como uma biografia e, tal qual, somos levados a acompanhar a sua jornada desde seus mais tenros anos. Podemos classificar Jane Eyre como romance de formação e posso afirmar que ver esse desenvolvimento e jornada de Jane é algo prazeroso de se acompanhar. Ela é uma personagem complexa, forte e que faz questão de defender o que acha certo em muitas ocasiões, o que é inspirador. Além disso, seus pensamentos nos causam muita identificação. 

A vida de Jane começa bem difícil, estando ainda pequena muito submetida ao favor de uma tia que a enxerga bem inferior. Esse estado em que Jane está vulnerável e dependente de outras pessoas é uma força motora para todo o restante de sua trajetória. Ela agarra a primeira oportunidade que aparece, que é ir para Lowood, uma escola de orfãs. Isso acontece primeiro para que ela se livre da família que tanto a maltrata, porém acaba entregando em suas mãos todos os recursos que ela precisa (em forma de conhecimento) para buscar seu próprio destino. A partir desse momento, Jane não deixa de se apropriar de todas as suas decisões em momentos cruciais da história. Desde e saída de Lowood para conseguir um emprego e a fuga de Thornfield Hall, até sua recusa veemente em casar com St. John apenas para ir com ele para a missão na Índia. 

Para além da força da protagonista, Jane também me deixou encantada pela forma com que enxerga as personagens femininas ao seu redor. É de se esperar uma grande rivalidade feminina, ainda mais em histórias de uma época em que apenas o casamento era a forma de ascensão social de uma mulher. Mas não é assim com Jane: desde a Sra. Temple e a frágil Helen, passando pela Sra. Fairfax e até Diana e Mary, há muitas cenas e até gestos de companheirismo que deixariam algumas obras mais modernas no chinelo. Normalmente os personagens masculinos são aqueles a mudarem em definitivo o destino das mulheres desse período, mas Jane tem seu próprio quinhão de mulheres que orbitam ao redor dela e a auxiliam de alguma forma. 

Uma das principais é a Sra. Temple, educadora em Lowood, e que acaba se tornando modelo de comportamento para Jane. Esse modelo vem carregado dos valores puritanos da época e que acabam permeando a história de uma ponta a outra, como podemos ver nos valores atribuídos à mansidão da própria Jane e valorizados por Rochester na sequência em que ele a pede em casamento (que vira a contrapartida de Bertha, ou mesmo dos valores atribuídos à dedicação de St. John, que foi capaz de abrir mão de seus sentimentos em nome da missão religiosa que via em si mesmo. 

Aliás, uma das questões complicadas desse livro é justamente a caracterização de Bertha, a primeira esposa de Rochester. Além de toda a estigmatização da doença mental da personagem, que a torna praticamente descartável para o marido, podemos ver a carga racista do discurso de depreciação dessa personagem. A descrição de sua cor de pele e de todas as características não puritanas são um espelho do pensamento vigente da época, que inclusive era "justificado" por artigos científicos que hoje nos causariam verdadeira vergonha. E a própria loucura da personagem é associada à etnia da personagem como algo que aconteceria inevitavelmente. Confesso que isso não contribuiu em nada para simpatizar com o herói da história. 

Edward Rochester pode ser classificado como um herói byroniano, que possui um caráter duvidoso e que muitas vezes causa um desconforto. Não chega a ser um Heathcliff, embora tenha temido pela cena em que ele praticamente ameaça Jane, reforçando sua personalidade explosiva. Mesmo assim, sua visão de mundo e a forma como se coloca diante de Jane, quase como se a visse como um objeto a ser possuído, acaba sendo um contraste intenso com a protagonista. As desventuras da parte final da história, que amenizam algumas dessas características, permitem que ele tenha um pouco mais de apelo para o seu final feliz com Jane. Mesmo assim não consigo afirmar que gosto dele. 

Apesar dessas questões, Jane Eyre foi um livro bem agradável, de escrita gostosa e com uma jornada encantadora de uma personagem que traz alegria ao coração. Recomendação mais do que feita. 

Título: Jane Eyre
Autor (a): Charlotte Brontë
Tradução: Adriana Lisboa
Publicação: 2018
Páginas: 682
Editora: Zahar


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