Minhas leituras: A Amiga Genial (Tetralogia Napolitana #1)


Já li o primeiro livro da Tetralogia Napolitana faz algum tempo e, por motivos de tempo, acabei não seguindo pela série de livros de Elena Ferrante. Mas a estreia de My Brilliant Friend, adaptação em série desses livros (com a primeira temporada já encerrada) me motivou a reler e retomar essa leitura maravilhosa. Melhor ainda, estou fazendo essa leitura com a Julianna Campos e com a Carissa Vieira




Desde já preciso dizer que a obra de Elena Ferrante é daquelas que precisam ser revisitadas de tempos em tempos, tamanha a complexidade que ela nos traz em suas histórias. Essa segunda leitura que fiz já abriu um leque em minha mente que me fez enxergar ainda mais coisas do que tinha captado da primeira vez. É fascinante o que essa escritora é capaz de fazer em suas obras. 

E essa complexidade é interessante de se perceber desde o início da história, quando não temos familiaridade alguma com as personagens. É como se ela nos colocasse confortáveis em uma poltrona, como expectadores, guiando nosso olhar a cada cena e desenvolvimento. Há uma sensação de estarmos perdidos, afinal ela traz uma infinidade de famílias, relações e coisas que somos obrigados a entender no meio do caminho. Mas, à medida que avançamos, capturamos os traços que definem esse universo, repleto de intensidade, violência, pobreza, desespero e tentativa de sobrevivência. Não podemos nos esquecer que estamos olhando para Nápoles depois da Segunda Guerra Mundial, numa Europa devastada de todas as formas possíveis. E isso se reflete em toda a história. 

Dentro do universo de violência e intensidades criadas no bairro, a parte mais comovente é a situação das mulheres. Não importa a colocação ou onde estão, elas estão sempre enfrentando a limitação que lhes é imposta. Isso já é mostrado a partir da luta de Lenu e Lila para continuar os estudos, onde apenas uma consegue vencer, mas com muitas dificuldades em todo o momento. Mas também é enxergado através das dores, sacrifícios e até pela forma como a voz delas é sufocada, como é o caso de Melina. A fragilidade social da perda do marido já era suficiente para deixá-la desamparada, com tantos filhos para criar, mas a forma com que Donato Sarratore acaba sacramentando sua situação, saindo com a reputação praticamente ilesa (a não ser pela forma que o filho o vê), enquanto ela vira apenas a louca do bairro. 

Aliás, toda a situação por trás de Donato Sarratore e a própria circunstância da revelação de seu verdadeiro eu acaba se mostrando um debate interessante, especialmente para nossos dias. Até então Lenu o via como uma figura masculina respeitável, "pai de família e cidadão de bem", sendo inspirador pelo fato de ter publicado um livro. Mas a virada na índole do homem faz com que ela o enxergue de verdade pela primeira vez. E quantas vezes fazemos isso? Quantas vezes deixamos por isso mesmo, negando a olhar a realidade bem diante de nós?

E é justamente nessa atmosfera que a relação entre Lenu e Lina se torna algo tão fascinante, inclusive pela forma com que o olhar de uma está sempre voltado para a outra, seja para o incentivo, seja pela inveja, seja pela admiração pulsante que as devora e melhora ao mesmo tempo. É uma atração e repulsa constantes, como se elas não pudessem viver em sincronia e, ao mesmo tempo, não conseguissem a separação. São boas e tóxicas uma para a outra, quase ao mesmo tempo. Vivem quase de forma simbiôntica. Tudo gira bem longe para o conceito de certo ou errado. Elas são mais do que isso e se definem por mais coisas do que isso. 

Uma das coisas mais interessantes dessa releitura foi captar a forma com que Lenu acaba comparando Nino a Lila. Isso faz pensar que talvez as características que façam Lenu amar a Nino sejam aquelas mais semelhantes a Lila, como se ela buscasse por rastros da amiga no rapaz. E essa na verdade é boa parte da sina de Lenu nesse primeiro livro, seguir os rastros de Lila. Nino então seria mais uma forma de mantê-la por perto, ainda que de forma inconsciente. 

Enquanto isso, ela observa as disputas dos rapazes do bairro por Lila e é possível verificar um rastro de ciúmes tanto por ver que ela recebe tantas atenções como por não desejar que eles a enxerguem e a levem para longe. Uma possessividade intrínseca que também é vista por Lila, mesmo que a narrativa seja toda de Lenu. E isso acaba ecoando na sequência inicial, quando Lenu fica com raiva de Lila não pelo sumiço, mas pela ousadia de não deixar rastros para trás. 

Essas foram as primeiras impressões que tive da releitura de A Amiga Genial, e já estou ansiosa pelo próximo. 

Título: A Amiga Genial
Autor (a): Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Publicação: 2015
Páginas: 336
Editora: Biblioteca Azul

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