Assisti: Red (Temporada 4)


"Você sabia que a maioria das doenças que as pessoas tem são palavras presas?"



Quando essas palavras foram ditas no episódio 8, eu soube que tinha achado o tema dessa quarta temporada de Red, que tive o privilégio de assistir durante essa semana. Digo a palavra "privilégio" porque, a cada temporada, o amadurecimento de roteiros e escrita é encantador, além do enriquecimento da produção, direção, edição e, é claro, atuações que entregam o necessário para nos derrubar de joelhos diante do computador. 

Atenção: O texto terá spoilers daqui para frente. 

Uma das grandes questões exploradas por essa temporada foi a ausência de uma comunicação eficiente entre Mel e Liz. Eram muitas coisas por serem ditas, mas que nunca chegavam a ser de fato. E essa ausência criou muros entre elas, dificultando que o relacionamento progredisse de uma forma saudável. 

Acho importante que as roteiristas tenham a coragem de trazer esse tipo de coisa para a história, mantendo a honestidade com a qual se comprometeram desde o começo da série. Afinal, temos duas pessoas que viveram uma paixão envolta por várias barreiras e isso aconteceu desde o começo. A própria fala de Mel ao dizer que não se sentia confortável em ter traído Henrique mostra que aqui não há espaço para minimizar atitudes erradas de ninguém, mesmo quando são feitas por personagens tão queridas. 

Inclusive, o fato de o relacionamento entre Liz e Mel ter começado a partir de uma traição era um fantasma que não deixaria de assombrar as duas (e a presença do quadro de Henrique no apartamento assim que Liz se mudou com Mel é um símbolo disso). Se não fosse Vitória, seria outra pessoa. A insegurança de Liz não veio do nada, como Mel afirmou. Havia uma raiz ali, pronta para ser exposta. 

Também não há como ignorar a fragilidade emocional presente em ambas, que criou um ambiente que mais sufocava que libertava as duas no relacionamento. Liz deixou de ser ela mesma, sentindo a vulnerabilidade e a dependência emocional que se encontrava em relação a Mel, abrindo mão de boa parte de sua personalidade e se anulando cada vez mais. E Mel, ao primeiro sinal de rachaduras no relacionamento, recebeu de braços abertos a atenção que Vitória lhe entregava. Em nenhum momento ela cortou as investidas da ex, mesmo quando ela deixou claro que ainda tinha interesse. 

Por isso que a decisão de Liz em se afastar foi certamente a melhor coisa, e para as duas. Claro que coração shipper sofre, chora e se desespera. Mas eis a beleza de Red: o cuidado no desenvolvimento de personagens é maior e isso é fundamental. Elas precisam desse tempo para que seja possível acharem os pedaços delas mesmas perdidos pelo caminho e só então estarem prontas para tentar novamente. 

Aliás, acho importante que os próximos passos da jornada de Liz e Mel sejam solitários, principalmente para Mel. Desde o começo da série não sabemos como é a Mel solteira, tendo apenas a si mesma. Talvez seja o momento dela ter esse tempo sozinha, sem nenhuma muleta emocional, especialmente se ela estiver em algum processo depressivo, como foram os sinais do começo dessa temporada. 

Liz já é uma personagem que parece ter criado mais de sua própria resistência durante essa temporada. Admitir sua fragilidade para Ana no episódio 8 e então abrir a si mesma na reunião do NA na season finale foi de encher os olhos de lágrimas emocionadas. Ela sabe qual o caminho que precisa traçar e agora está pronta para a jornada. Inclusive foi lindo vê-la de mochila nas costas, decidida a fazer sua redescoberta. 

Falando em redescobertas, que delícia foi a jornada que fizemos com alguns personagens aqui. Laura foi uma grata surpresa e foi ótimo ver sua confiança adquirida no relacionamento com Ana. A moça deixou de lado o papel de possessiva para se impor. Foi lindo e empoderador. Quero mais dessa Laura (como quero poder ver Shades of Red para saber se ela teve algum desenvolvimento lá). 

Outro desenvolvimento que colocou um sorriso na minha cara foi Erik. Sempre me incomodei um pouco com a forma com que ele exercia um papel de masculinidade típica e procurava entender como Liz e Mel o apreciavam tanto. E não só ganhamos uma desconstrução do personagem como tivemos o prêmio de ver a representatividade de um homem bissexual. E que cena emocionante foi a da confissão que ele faz para Mel. Mesmo o incômodo com a fala de Erik, que falava de algo sobre ele se ver agora como "meio hétero e meio gay" (uma correção por parte de Mel já seria bem vinda) acabou ficando em segundo plano pela carga emocional da sequência. Sem contar que me identifiquei com a forma com que Erik acabou se encontrando em sua sexualidade, afinal nunca tinha cogitado outra coisa a não ser a heterossexualidade, até perceber que não se encaixava na identidade com a que sempre se pronunciou. 

E isso me faz pensar da importância que Red adquire para a comunidade LGBTQIA, uma vez que temos tanta diversidade representada. Nunca consegui achar que a frase "temática lésbica" se encaixasse em sua definição, uma vez que a bissexualidade de Mel sempre ficou clara desde a primeira temporada (com a moça usando a palavra com "b" na temporada passada). Além disso, a própria Mel já se colocou algumas vezes com outros personagens (no episódio 5 ela rejeitou as "medidas" que Vitória quis fazer de sua sexualidade). Mas percebo que a tendência é que esse espectro de representatividade aumente ainda mais e que cada vez mais pessoas possam se ver na telinha (e espero que possamos ter outros recortes, como de classe e etnia, para a próxima temporada). 

É com um sorriso de satisfação que sigo recomendando essa série maravilhosa, que só se aprimora a cada nova temporada. Seja em roteiro, atuação, produção ou numa trilha sonora que matou na unha (não vejo a hora de ter a playlist no Spotify). Ainda não conhece a série? As três primeiras temporadas já estão disponíveis pra todo mundo nesse link e a quarta, que está on demand aqui, estreia oficialmente no dia 12 de junho. Vem mergulhar nessa lindeza. /left

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