O B em LGBT: Todos nós adorávamos caubóis


Procurando por personagens bissexuais por aí.


Essa coluna parece um pouco previsível vindo de alguém que, como eu, se identifica enquanto bissexual. E ok, que seja, aceito de bom grado a previsibilidade, afinal essa é uma palavra que não podemos usar assim com tanta facilidade quando o tema é identidade bi. 

Demorei cerca de 27 anos para me identificar enquanto bi e, para ser honesta, é muito provável que eu ficasse a minha vida inteira sem me entender por completo, não fosse o assunto ter aparecido em minha vida. Foram 27 anos me entendendo enquanto heterossexual e, mesmo quando percebi que algo não encaixava nesse rótulo com o qual me acostumei por tanto tempo (graças à heterossexualidade compulsória), não conseguia redefinir quem eu era. Até que consegui. 

E, mesmo quando tinha me identificado, foi apenas quando li Todos nós adorávamos caubóis de Carol Bensimon que fui capaz de realmente me encontrar em minha essência. Por isso vou começar essa coluna justamente aqui, em meu ponto de partida, e esperar que mais pessoas possam se achar. 

Cora é a protagonista do livro. E, embora Júlia também possa cair no espectro da bissexualidade, é a segurança de Cora em sua identidade que faz o diferencial. Ela sabe que se sente mais atraída por mulheres, e isso pode acontecer. Mas ela não tem dúvidas de quem é. Mesmo quando seu coração está esmigalhado no processo e quando estar com Júlia durante a viagem pelo interior do Rio Grande do Sul a faz cutucar mais feridas do que curá-las. 

Todos nós adorávamos caubóis é uma road novel com uma cara toda nossa, toda brasileira. É fácil a gente se identificar com as expressões, falas e mesmo aquele típico sotaque do Sul (que não é do meu dia a dia) estão expressas nas linhas inspiradas de Carol. Além disso, há um quê de jornada interna para cada uma das duas personagens principais. Camadas que são adicionadas a cada quilômetro percorrido por elas. 

Há algo de confortável na forma com que Cora, a personagem narradora, expressa sua sexualidade. Por ser uma história que apresenta um romance entre duas mulheres, o normal é esperar uma hiperssexualização. E eis a vantagem de lermos algo escrito por uma autora: temos o olhar de uma mulher, o que elimina essa exploração excessiva das fantasias envolvendo duas mulheres. Temos duas pessoas atraídas sim mas, acima de tudo, que expressam sentimentos em cada um dos pedaços desse livro. Inclusive, a própria Cora deixa bem claro que seus relacionamentos com mulheres é que envolvem esse tipo de comprometimento romântico, o que leva o envolvimento delas para um nível que escapa do fetichismo. 

É maravilhoso poder se encontrar nas páginas de Todos nós adorávamos caubóis e por isso começo recomendando esse livro. Nas próximas semanas quero trazer mais recomendações e montar uma espécie de arquivo aqui no blog. E você, conhece algum livro com personagem bi? Coloque aqui nos comentários. [no-sidebar]

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