/body Escritora Marcia Dantas: Jedi polêmico e masculinidades em The Last Jedi

12 de fev de 2018

Jedi polêmico e masculinidades em The Last Jedi

,
A poeira abaixou, mas ainda podemos falar sobre isso.



Para quem me acompanha na newsletter essa discussão não é exatamente novidade. Mas achei importante trazer para cá os debates feitos por ali, de uma forma mais aberta para que todos possam opinar. E, claro, quem tiver interesse em ver essas discussões em primeira mão, basta assinar aqui. É de graça.

Queria deixar bem claro que esse texto não me faz a guardiã máxima da verdade sobre o universo Star Wars, então sinta a liberdade de opinar e abrir debate (sempre com respeito), porque apenas o debate saudável nos ajuda a entender as questões.

Nunca achei que um filme de Star Wars causaria tantas polêmicas na internet (e olha que a escolha de Daisy e Boyega já foi material suficiente para haters por aí). A grande questão é: inicialmente fiquei bem confusa, afinal o que vimos no telão não foi nenhum resultado desastroso digno de Framboesa de Ouro. Para quem teve que encarar falas inspiradas como “eu odeio areia” ou coisas parecidas, esse filme foi uma massagem (sério, falar que Attack of the Clones é melhor que esse me faz questionar o gosto de algumas pessoas por aí). Como já falei com algumas pessoas, The Last Jedi nunca será meu filme favorito de Star Wars. Há algumas barrigas (uma específica, no meio do filme, o qual entendo a importância, mas acho que poderia ser bem menor) no filme e piadas inseridas em momentos errados que cortaram alguns momentos do filme. No entanto, reconheço a importância do filme e a mudança de paradigma que ele trouxe para o universo. Então sou obrigada a pedir que você segure meu leite azul, porque há alguns pontos que precisamos discutir para chegar ao cerne da questão. 

Eu vou me dar ao luxo de fazer esse texto com spoilers, porque acho difícil fazer essa discussão sem mencionar alguns pontos de The Last Jedi. Então, se você já viu o filme ou se não se importa com spoilers, pode seguir a leitura. Caso contrário, pode ir direto pra sessão Palavras multimídia, que sua experiência de ver TLJ estará a salvo. 

Desde o dia 14 de dezembro li e assisti a muitas análises diferentes, além dos comentários nas redes afora, tentando entender não só o que as pessoas estavam dizendo como o que estava por trás das críticas, do ódio e do esforço coletivo em negativar o filme em sites como o Rotten Tomatoes. E minha conclusão foi que o grande problema enxergado pelos haters foi a ousadia de mudar. 

Você deve estar perguntando: mas qual mudança afinal?

Na virada do ano um dos meus canais de YouTube favoritos lançou esse vídeo sobre a premissa que é um dos esqueletos primordiais da saga, que é a questão dos jedi e a relação deles com os sentimentos. Nas regras criadas por George Lucas, ter sentimentos e demonstrá-los é sinônimo de ir para o dark side. É trilhar um caminho de tristeza, medo e, por fim, sucumbir a algo que não é considerado saudável para um jedi. E, quando falo jedi aqui, estou falando especificamente de homens. Sei que olhamos para o universo expandido e temos jedi do sexo feminino que são inspiradoras, como Aayla Secura (que aparece na trilogia prequela, mas é mais desenvolvida no UE), mas nos filmes a predominância é de homens. Portanto, a filosofia jedi flerta com um ideal de masculinidade que parece muito com aqueles filmes de ação dos anos 80 e 90. 

Quando olhamos para o fandom de Star Wars, é isso que a gente acaba encontrando: a exaltação de um ideal de masculinidade que é o considerado “certo” para uma sociedade patriarcal e heteronormativa como a nossa. Falo isso com certa propriedade, andando por esses cantos da internet há quase 20 anos e percebendo como nunca fui bem vinda ou bem recebida, justamente por ser mulher. Sei que isso pode parecer um pouco repetitivo em tempos de discutirmos o lugar que uma mulher consegue ocupar dentro de coisas consideradas somente voltada para homens, mas não posso deixar de fazer essa observação, até porque ela é absolutamente verdadeira. Nunca consegui achar meu lugar no fandom de Star Wars, então minha solução foi estar ausente dele, apenas observando à distância. 

Inclusive, nessas observações, sempre fiquei intrigada com a forma com que o personagem de Luke Skywalker era malhado pelo fandom, chamado de fraco e outras coisas mais ofensivas e que demonstravam que o fato dele ter um pouco mais de sensibilidade e não ser identificado (tanto) com esse ideal de masculinidade não agradava aos fãs (que era algo que vinha na contramão da construção de Han Solo, sempre mais exaltado pelos fãs). Por isso estranhei quando, de repente, ele começou a ser considerado como a melhor coisa de Star Wars. 

Essa exaltação de Luke já começou mais de dois anos atrás, quando foi anunciado que Daisy Ridley seria protagonista de The Force Awakens. Aliás, não só isso, mas havia uma recusa em enxergar Rey como jedi. Quer dizer, isso nunca foi uma surpresa, certo? Um dos produtos de cultura pop mais bem sucedidos da história dava um passo em trazer uma protagonista feminina, claro que ia ter barulho. Mas, ao ver a forma com que TLJ foi odiado com todas as forças, entendi que ia além de ter uma protagonista mulher: era entregar um dos ideais de masculinidade mais adorados pelos nerds espalhados por aí nas mãos de uma mulher. Ela se tornou o símbolo dos jedi. É um curto circuito na cabeça de uma galera que não consegue engolir isso ou ter um stormtrooper negro. 

Você pode estar pensando: ok, até agora nenhuma novidade. 

Sim, eu sei que essas são questões debatidas desde TFA e nada mudou muito de lá pra cá. O que TLJ fez de diferente foi questionar o conceito dos jedi em si. O impacto começou no trailer oficial, onde Luke já dizia que os jedi deveriam acabar e o filme não deixou de reverberar isso. 

Aliás, pra quem acompanha um pouco do universo expandido (no meu caso, estou conectada direto com o universo via Star Wars Rebels), percebeu que a discussão de equilíbrio e o desmanche do maniqueísmo na Força. Isso já serviu para que os jedi deixassem de ser a autoridade máxima no que diz respeito à visão sobre a Força e se tornasse apenas mais um ponto de vista, assim como os próprios sith e mesmo os guardians of the whills, ordem a qual Chirrut de Rogue One pertencia (Greg Rucka escreveu sobre os personagens nessa obra, que já quero, beijos). Não podemos esquecer que cada uma dessas formas de visão sobre a Força acaba sendo uma religião, portanto depende de interpretação da coisa primordial desse universo. Acho incrível essas várias visões. 

Luke era a última representação desse ideal dos jedi como os que determinavam a interpretação da Força e esse ideal de masculinidade que tanto povoou o imaginário dessas pessoas. E, quando ele recusou e se voltou contra isso, o furor foi geral. Foi dito que essa era uma deturpação de quem era o Luke que conhecemos por tanto tempo, mas isso é mais o medo do questionamento do modelo de masculinidade. É colocar em cheque o que era considerado como o padrão, o que “deveria ser”. Mas não era bem assim, e a própria franquia se reinventou ao rever o que antes era dogma inquestionável. 

Além disso, Luke estar ressentido, escondendo-se da Força e não querendo mais seguir pelos caminhos de sempre (por erros da filosofia jedi e dele mesmo) não foi jogar fora quem o personagem era, mas adicionar mais camadas. Star Wars finalmente está dando passos para longe da dicotomia light/dark e adicionando complexidades ao universo. Isso inclui repensar e resignificar. Isso propõe romper com o que estava sendo feito até então. E esses novos filmes da franquia estão propondo novos olhares, que abraçam mais questões e saem do que era padrão. Isso inclui não só os jedi como o patriarcado e os padrões de masculinidade. 

Então vamos lá, qual foi o crime da Disney pra essa galera toda: escalar minorias nos papéis principais (temos duas mulheres, uma delas não-branca, um homem negro e um homem latino); questionar ideais de masculinidade pré-estabelecidos na trama (mulheres que se viram e até tem papeis de comando independente de homens, questionamento dos jedi e de sua visão dentro do universo como sendo a “certa”). Além disso, vimos Luke recusando seu passado através do gesto de desprezar seu antigo sabre e não utilizando a Força da “forma que todos esperavam” (o que teve de gente reclamando que esse filme era uma droga por não ter luta entre pessoas usando um sabre foi risível, sério). Ao mesmo tempo, tivemos Leia conseguindo usar a Força, o que pra muita gente não poderia ser feito “por ela não ter tido treinamento” (sendo que Luke é um dos maiores autodidatas da galáxia, vamos combinar). 

Como eu disse anteriormente, há coisas desse filme que não gostei tanto e que, numa visão geral, não deixam esse filme no topo da minha lista. Mas sou obrigada a defendê-lo, não por ser fã de Star Wars (porque sou dessas que fala mal antes que todo mundo hahaha), mas por entender o que temos em mãos agora, e é coisa grande. São mudanças profundas e compatíveis com os tempos que vivemos. Star Wars está acompanhando as discussões atuais e resignificando a si mesmo. Não parou no tempo nem repetiu velhos chavões (como biquinis dourados, sutiãs banidos do espaço ou mulheres que são completamente ofuscadas por personagens masculinos), mas está indo além, trazendo frescor a uma franquia de mais de 40 anos. Tal qual Doctor Who que, a despeito de ataques de pelanca por toda a internet, deu um passo e trouxe uma Doctor mulher (muito embora Moffat tenha me enfezado em seu último episódio, mas isso é assunto pra outro momento). 

E essa mudança é tão interessante que é importante parar para pensar em outra coisa que apareceu no filme: a discussão de masculinidades pela storyline de Poe Dameron,

Às vezes acabamos nos concentrando tanto em teorias mirabolantes, plot twist e revelações chocantes quando, em muitos momentos, a mensagem contida pode ser muito mais tocante que qualquer virada de roteiro. E isso foi o que esse filme de Star Wars trouxe para mim. 

Vamos começar colocando algumas questões: quem me acompanha desde a outra newsletter sabe que tenho um crush enorme no Oscar Isaac, mais conhecido como o namorado da internet

E isso não me faz, de forma alguma, ignorar as várias bobagens (para ser bem boazinhas) cometidas por Poe Dameron em TLJ. Sério, saí do cinema querendo dar uns tabefes nele.

Tanto é que acho que o tapa e o blaster ficaram baratos, vamos falar a verdade. 

É interessante dizer que, quando vi TFA, uma das coisas que mais me chamava a atenção em Poe Dameron (além do Oscar Isaac) era essa possibilidade de Poe ser um personagem que não era completamente compatível com a masculinidade padrão que costumamos ver nos filmes. Ele demonstrava um grande carinho por BB-8, não tinha medo de demonstrar nada na sua recém adquirida amizade com o Finn (sim, eu shipo) e tinha um respeito pelo comando de Leia, independente de ser mulher. Pelo menos foram essas as primeiras impressões. 

TLJ veio para contrariar um pouco o que eu pensava. 

Um dos primeiros sinais disso foi justamente ver Poe desafiando ordens diretas que tinha recebido de Leia, logo na sequência inicial do filme. Sua ação e a justificativa (adorar explodir coisas com um X-Wing) podem parecer apenas sinais típicos de um personagem rebelde, algo que até acompanhamos na trilogia original com Han Solo. Mas confesso que, ao assistir ao diálogo entre Poe e Leia, um sinal amarelo acendeu em minha cabeça. Era como se eu estivesse me preparando para o que estava para vir.

As atitudes de Poe em relação à Holdo foram completamente machistas e acho muito importante que a gente chame as coisas pelo nome. Se tivesse uma cartelinha de bingo machista, eu teria gritado “bingo” no meio do cinema. E acredito que o roteiro teve toda a intenção de retratar as atitudes de Poe dessa forma, sem tirar nem por. Claro, uma das coisas mais interessantes disso tudo foi o ponto de vista colocado, afinal não conhecíamos Holdo e (achávamos que) conhecíamos Poe. Era fácil imaginar que ela era uma conspiradora da First Order ou alguma coisa parecida com isso. Então, bem diante dos nossos olhos, percebemos que Holdo não era a inimiga e que estava tomando as melhores decisões para preservar a Resistance. Poe foi fogo amigo e tudo isso por causa do machismo. 

É um pouco frustrante dar de cara com isso? Confesso que sim. Como eu disse, imaginei que poderíamos ter um personagem que não tivesse esse machismo típico. Mas, quando olhamos para o outro lado dessa moeda e, tendo local de fala nesse sentido, digo: as atitudes de Poe contra Holdo são mais comuns do que se imagina. 

É muito comum para um homem duvidar da competência de uma mulher em quesitos profissionais e, quanto mais alto na hierarquia ela estiver, maiores são essas dúvidas. Quantas vezes ouvi em minha vida que as mulheres que estavam acima de mim tinham feito “o teste do sofá” para alcançarem o cargo em que estavam? Quantas vezes uma mulher não foi considerada apta por não ter “inteligência emocional” (ou por ser “feminina demais” em suas atitudes)? Quantas vezes a sexualidade de uma mulher foi utilizada para insultá-la em seu ambiente de trabalho? Quantas vezes um homem explicou a mesma coisa que uma mulher tinha acabado de dizer e foi levado em consideração, enquanto a mulher era ignorada? Quantas vezes uma mulher foi considerada inapta para aprender algo relacionado ao seu trabalho, mesmo quando já conseguia fazê-lo? Quantas vezes uma mulher foi chamada de “vagabunda”, “vaca”, “puta” e variantes por ter atitudes mais frias e práticas, enquanto um homem era apreciado por agir exatamente da mesma forma?

Poe duvidou, questionou e colocou em cheque cada uma das decisões de Holdo e colocou a Resistance em risco em nome de se achar mais capaz de entender exatamente o que precisava ser feito. Não duvido que, se Holdo fosse um homem, ele teria agido de forma diferente e se lembraria de respeitar a hierarquia e confiar no julgamento da pessoa acima dele. 

Poe foi o símbolo de um inimigo ainda mais perigoso que a First Order: a masculinidade tóxica e o machismo estrutural. 


Essa nova trilogia de Star Wars está cutucando o patriarcado e a masculinidade padrão. A reação de Poe pode ser comparada à própria reação que parte do fandom teve diante de TLJ. Temos uma protagonista feminina desafiando Luke. Temos o até então heroi Finn recebendo algumas verdades na cara pela Rose. Mulheres fortes no comando da Resistance (ecoando aquela liderança de Mon Mothma, que me inspira desde a trilogia original), não tendo suas histórias definidas pelos homens e tomando decisões e sendo decisivas. Claro que isso ia gerar reações. 


Mas, tal qual o blaster que Poe recebeu de Leia, as coisas não vão mudar em Star Wars. Vamos ter pessoas não brancas sendo importantes. Vamos ter mulheres sendo decisivas, heroínas, inspiradoras e causando admiração (meus olhos brilharam com Holdo salvando as pequenas e derradeiras naves da Resistance, sem hesitar um segundo sequer). Vamos ter uma nova geração de pessoas vendo outros tipos de heroísmos e figuras na tela. Vamos ter o enfraquecimento dessa masculinidade tóxica.

Não nego que TLJ possui algumas questões que me incomodam. Quero poder rever esse filme em breve e tentar ver se essa visão se confirma ou se melhora. Mas, independente disso, não podemos ignorar o que esse filme nos trouxe. E que venha mais Star Wars por aí. 

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigada pela visita e volte sempre! Seu comentário é sempre importante e bem vindo.

Lembre-se que você é livre para se expressar, desde que com respeito e sempre respeitando o espaço das outras pessoas.

Comentários racistas, misóginos, lgbtfóbicos ou que incitem ódio e/ou violência serão excluídos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...