/body Escritora Marcia Dantas: Guia de sobrevivência como escritora

7 de fev de 2018

Guia de sobrevivência como escritora


Porque não foi fácil chegar onde cheguei. 

Para quem acompanha a minha newsletter, essa discussão não é novidade. Mas quis trazer um pouco dos meus aprendizados para cá também. 

Desde de 2014 embarquei em uma estrada intensa ao me profissionalizar como escritora. Foi cheio de percalços, reviravoltas e, mais do que isso, aprendizados.

São quatro anos em que perdi as contas dos momentos em que quis desistir. Sério, ser escritora se assemelha muito a fazer um curso universitário: as constantes vontades de jogar tudo para o alto e deixar tudo para trás fazem parte do processo. Tudo parece muito difícil e às vezes não há como resistir a tomar o caminho mais fácil. Mas também o caminho que não trará a realização.

Tentar desistir às vezes é a forma de nos fazer continuar. Dar dois passos para trás, ver todas as coisas e repensar o caminho é um jeito de recomeçar, com novas expectativas e objetivos.

Hoje consigo ver todo meu aprendizado em perspectiva. Tenho uma noção mais ampla do mercado literário brasileiro, dos processos de escrita, de publicação e de como alcançar público (ou começar a fazê-lo). Entendi que tinha uma visão romântica da coisa e, pouco a pouco, isso foi se quebrando e dando lugar a algo mais perto da realidade, o que foi a melhor coisa que poderia me acontecer. Sinto que a experiência e o entendimento me tornaram em uma profissional da escrita capaz de abraçar de verdade tudo o que envolve ser escritora e, mais do que isso: aproveitar as partes boas e se divertir com isso.

Resolvi escrever essa newsletter para reunir todas as coisas que aprendi nesses quatro anos. Ele se destina a ser um guia, mas não algo que deva ser obrigatório ou que deva ser seguido ao pé da letra como um tutorial. É mais no sentido de trazer uma visão geral e trazer sugestões de coisas que funcionaram para mim e que me ajudaram bastante. Ou coisas que observei como alternativas mais viáveis ao que estava fazendo até então. Espero que possa ajudar a quem está começando nessa estrada. Caso queira compartilhar suas experiências, basta usar os comentários. 

 

1. Crie um público:

Essa parte é muito importante e faz uma boa diferença. Talvez seja uma das partes mais trabalhosas da publicação em si e que a gente só entende quando começa a esperar que nosso material seja lido.

Acho que essa é uma das coisas que mais temos romantizadas em nossa cabeça. Nós fantasiamos que um dia nosso talento será descoberto, como em um sonho, e que de repente todas as pessoas do mundo nos conhecerão e farão filas para ler nossos livros e pedir autógrafos. E não é bem assim.

Quando publiquei a primeira edição de Reescrevendo Sonhos, ainda com a capa antiga, achei que as coisas seriam assim, e quebrei minha cara. Vendi cópias para meus familiares e amigos próximos. Justamente aquelas pessoas que torciam por mim e que conheciam meu texto (o que é lindo, não estou reclamado). Não conseguia alcançar mais pessoas além dessas. O que me deixou frustrada (principalmente porque estava com uma editora e esperava que eles fizessem o trabalho de me divulgar).

Então entendia que eu precisava fazer algo para que me conhecessem.

Demorou bastante tempo para eu entender que: 1. Precisava falar de mim, porque não havia editora que fizesse esse trabalho; 2. Que esse era um trabalho demorado, lento e constante.

Sabe aquela expressão “trabalho de formiguinha”? Ela se aplica perfeitamente nesse caso. Nada acontecerá do dia para a noite. Você precisará fazer muito, ser constante e conquistar uma pessoa por vez. Você precisará falar de você, por mais que seja incapaz de receber elogios sem querer se esconder em um buraco como um avestruz (meu caso). 


 

2. Tenha em mente que você precisa focar em seu público-alvo:

Isso foi algo que aprendi lendo o livro do Randy Ingermanson sobre o método snowflake. Muitas vezes nós queremos abraçar o mundo com as pernas, imaginando que temos que projetar nosso livro para ser lido para todas as pessoas e que isso fará com que a gente tenha mais leitores. Mas o modo mais efetivo de alcançar leitores é pensar em quem é a pessoa que se interessaria no tipo de história que você escreve.

Pensa que você aparece num grupo do facebook pedindo indicações de livros de detetive e aparece uma pessoa indicando o livro dela. Só que este livro é um romance que se assemelha a 50 tons de cinza. Não era o que você queria ler. Não foi o que você pediu. Provavelmente você não vai querer ler nada daquela pessoa, mesmo que um dia você queira ler um livro desse tipo.

Entender seu público-alvo é fundamental.

 

3. Muitas vezes você pode disponibilizar seu texto de graça.

Sim, eu sei, conheço aquela máxima de que você deve receber o pagamento justo pelo seu trabalho, afinal ninguém vai pedir a um médico que faça uma consulta de graça. Mas muitas vezes você vai ter que contrariar um pouco isso como profissional da escrita.

Ano retrasado experimentei compartilhar a prequel de Reescrevendo Sonhos na minha newsletter e também em plataformas como o Wattpad e consegui alcançar mais pessoas. Não recebi nada em valor monetário, mas permiti ser conhecida por pessoas que podem se fidelizar a mim e, no futuro, querer ler mais coisas minhas.

Já no ano passado compartilhei Retratos e Crônicas da Garota Nova de graça na newsletter e presenteei novos assinantes com o livro completo. 


Essa é uma boa tática, já falo para você. Desapegar de vez em quando do valor monetário do seu texto e fazer com que as pessoas se atraiam pelo seu texto. Gritar “livro grátis” na internet pode ser uma forma bem interessante de chamar a atenção para você. Dá uma olhada nesse texto que ele traz um debate interessante sobre essas questões. 

 

4. Começar a publicar na internet pode ser o primeiro passo:

Essa é uma coisa que eu falo que gostaria de ter feito antes de publicar em livro físico.

Publicar no wattpad ou plataformas afins pode ser uma forma bem interessante de fazer as coisas que disse nos itens anteriores. Você vai se apegar do seu texto e disponibilizar para as pessoas, entender e correr atrás do seu público-alvo e ainda aprender como se promover. É uma boa forma de você saber onde pode chegar e ainda trazer essas pessoinhas que podem seguir você e, quem sabe, comprar seus futuros livros. 

5. Quebre o mito de que escritor profissional é só aquele que tem livros físicos:

Eu demorei muito tempo pra quebrar meu fetiche com livros físicos, mesmo depois de tantos capotes que levei da vida.

Sim, eu sei, é complicado. Abrir uma caixa de livros com o seu nome é o sonho molhado de 10 entre 10 pessoas que querem ser escritoras, mas isso pode ir contra você muitas vezes, principalmente se você for uma pessoa sem recursos financeiros.

Livros físicos são caros. São investimentos difíceis de se fazer, mesmo se você achar a gráfica mais barata do mundo. Além disso, eles tem muitas especificidades tanto na capa quanto na diagramação, o que exige contar com pessoas que realmente entendam da coisa pro seu livro não ficar voltando um milhão de vezes da gráfica. Ou seja, precisa contratar gente pra fazer capa, diagramação e etc, o que encarece ainda mais o processo. Começar por essa parte pode significar um belo tiro de canhão no seu orçamento (acredite, eu sei disso).

Sei que você pode estar pensando nas editoras agora, mas acredite: elas são um desafio ainda mais complicado. Você pode até tentar mandar o seu original, mas saiba que há muitas armadilhas por aí, só esperando você colocar o pé. E as editoras grandes querem escritores com um público formado. E um público grande.

Eu demorei muito tempo pra quebrar esse mito do livro físico. Precisei tomar na cabeça de duas editoras, gastar uma grana boa com uma gráfica e ficar com vários livros parados aqui em casa para saber que poderia ter um caminho mais fácil. Precisei quase desistir como disse lá em cima, achar que o problema era eu e minha escrita que não agradaria ninguém, para tomar fôlego, jogar meu livro na amazon e até esquecê-lo um pouco lá. Resultado: meus livros e contos estão vendendo e sendo lidos no unlimited com uma boa frequência. Está sendo algo fantástico e que mudou minha perspectiva. Dá pra usar a amazon como plataforma sim, e dá pra fazer seu nome circular com a ajuda deles.

Seu investimento inicial pode ser zero: dá pra aprender a fazer a capa no canva e usar imagens do pixabay e outros sites de licença liberada. Dá pra fazer sua própria revisão e diagramação. E então usar o guia da Sybylla pra fazer o cadastro na amazon e para diagramar seu livro pelo word. Você também pode tirar o escorpião do bolso (se puder, claro) e investir em pessoas que façam capa, revisão e diagramação pra você e mesmo assim vai gastar bem menos que mandar imprimir numa gráfica ou pagar fortunas para alguma editora que peça “uma pequena colaboração” que pode ser bem pesado para seu orçamento.

E claro, se você já tiver um público formado e já manjar dos paranauês de se promover por aí, vai conseguir vender mais fácil na amazon. As coisas se articulam juntas nesse guia, não tenha dúvidas. 

 

6. Concursos e participação em antologias são que nem canja de galinha:

Quando comecei a me arriscar na escrita profissional, ouvi que participar com contos em antologias com muita frequência poderia prejudicar a visão sobre você como escritor de romance. Hoje, quatro anos depois, não acredito nisso.

Você é uma marca. Seu nome precisa ser visto para poder ser reconhecido. Falei muito nesse texto que publiquei no começo do ano passado sobre fazer contatos e atrair pessoas que podem te ajudar depois, como blogueiros e outros escritores, e isso continua real, mas também se aplica a quem vai ler você. Como alguém vai querer ler seus textos se não conhecer seu nome?

Então pode se jogar em concursos e antologias sem moderação. Só tome cuidado pra não ser algo que faça você gastar (ou pelo menos que o gasto não seja tão alto a ponto de não fazer valer a pena a participação) e nem pra cair em armadilhas (como eu caí na minha primeira antologia). Mas, feitas essas verificações, se jogue. 

 

7. Paciência:

Já falei ali em cima, mas não custa reforçar: as coisas não vão acontecer do dia para a noite, então acalme esse coração. Pouco a pouco você vai conseguir vencer as barreiras e formar seu público uma pessoa por vez.

Essa talvez tenha sido a lição mais difícil de aprender e de vez em quando me arrebento nessa parte de novo. Não ajuda ser vítima da Síndrome do Impostor e achar o tempo todo que na verdade as pessoas descobriram que sou uma fraude e que sou uma porcaria de escritora (sério, é assim mesmo aqui na minha cabeça). Mas as coisas estão se tornando mais fáceis com o tempo, aprendendo a ter a paciência que um ano atrás eu ainda não tinha. 

E então, o que você achou dessas dicas? Como tem sido sua estrada no mercado editorial?

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