/body Escritora Marcia Dantas: Kindred, uma história sobre (ausência de) poder

10 de jan de 2018

Kindred, uma história sobre (ausência de) poder

Comecei a escrever sobre poder porque era algo que eu tinha muito pouco.

- Octavia Butler. 



Muitos foram os atrativos que me fizeram mergulhar na leitura de Kindred, livro que já me chamava muito a atenção antes de ganhar tradução aqui no Brasil. Mas a frase de abertura dessa postagem foi, sem sombra de dúvidas, o fator determinante para que eu mergulhasse de vez. 

É muito importante entender a proposta que se torna a espinha dorsal desse livro, que é o poder. Tê-lo ou não tê-lo configura a questão de sobrevivência para as personagens que compõem a trama de Kindred. Podemos falar sobre aqueles que já estavam na situação ou sobre os que foram tragados para ela, longe de sua vontade ou controle. Quando paramos para pensar, isso realmente não importa, e sim quem possui o poder e quem tenta sobreviver à ausência dele. 

Octavia Butler escreveu esse livro na década de 1970 (e eu estranhei quando ela falou em cartas e máquinas de escrever) e é impressionante como as questões presentes nessa história não perdem a relevância. Ele continua sendo atual, mesmo quando a personagem principal vai para o período que antecede a Guerra Civil nos EUA. Ainda estamos falando sobre privilégios e poder. 

Aliás, em tempos em que a discussão sobre racismo, machismo, lgbtfobia e todo o resto, o entendimento sobre o poder continua pedindo esclarecimento e entendimento. Não se trata apenas de preconceito e segregação, embora esses sejam os fatores mais visíveis quando falamos em minorias e o tratamento que elas recebem. Precisamos falar sobre a diferença de se ter o poder ou de tentar não ver sua vida ser esmagada diante da ausência dele. 

Durante o ano que passou, devido ao projeto que fiz na escola em que trabalho, tive acesso muitas leituras que me fizeram confrotar meu próprio privilégio. Questões que não eram claras por causa de minha vivência e que me fizeram me chocar com como o poder perpetua as estruturas opressivas de uma forma tão sutil que precisamos nos lembrar o tempo todo que sim, aquilo está ali, e causa opressão. Kindred é mais um desses livros que esfrega na cara de nós, pessoas brancas, como ter poder pode definir tantas coisas importantes. 

Kindred nos faz pensar sobre essas questões nos arremessando sobre elas, tal qual Dana é arremessada no passado, sem saber o que está acontecendo. Num piscar de olhos as coisas acontecem bem diante de nós. A leitura nos apresenta situações que tanto podem ser familiares (especialmente se você estuda bastante História) e, mesmo assim, não perde o frescor e a contemporaneidade. 

O que mais faz esse livro são seus personagens. Temos uma personagem cativante que com a qual conseguimos nos identificar e torcer. Dana tem força em sua própria narrativa, especialmente pelo local de fala. E, mesmo dentro desse local de fala, ela sente o peso de estar em uma época onde as pessoas negras não possuem sua liberdade. Às vezes essa palavra não nos dá a dimensão precisa de seu significado no dia a dia, e é justamente por isso que a comparação que Dana faz sobre sua situação em relação aos escravos que encontra nesse período pré Guerra Civil vem com força. Ela consegue pontuar bem o choque de saber a História e vivê-la literalmente em sua pele. 

A força da protagonista ainda é acentuada pelo vilão que se apresenta aos poucos diante de nossos olhos. Ele pode não ser aparente no começo (foi assim para mim) ou pode ser que as coisas fiquem muito claras desde o começo; essa é uma experiência que provavelmente vai variar de leitor para leitor. Mas a construção feita na narrativa e a forma que a oposição se coloca, encaminhando-se para algo que nos parece inevitável, vai tirando nosso ar aos poucos. A cena do confronto final é a cereja no topo desse bolo. 

Elegi esse vilão, mas a verdade é que o verdadeiro vilão é a estrutura racial, que até hoje se perpetua através do racismo estrutural. Não podemos perder isso de vista e, mesmo ao fechar o livro, não esquecer das questões de poder, privilégio e estrutura opressiva. 

Kindred traz outros elementos, como empatia, sororidade e a inabilidade de tentar mudar o que pode não ser modificado. Dentro desses elementos, a amizade complexa entre Dana e Alice se torna uma das minhas coisas favoritas de se acompanhar. 

Encerro essa postagem com um sorriso no rosto por ter feito essa leitura que vai ficar comigo por um bom tempo. Que venham mais leituras assim em 2018. 

4 comentários:

  1. Costumo dizer que Dana era, acima de tudo, escrava do tempo, pois ela não podia escolher entre voltar ou não pra salvar a bunda do Rufe. Ela era obrigada a ir.

    E outra coisa que chama a atenção logo de cara é a diferença de percepção dela e do marido, que achava que era um período interessante, a expansão para o oeste, as aventuras, mas claro, ele era branco, era um período ótimo pra ser homem branco e heterossexual.

    Toda vez que li esse livro ele me deixou pensativa. São tantas questões que ele traz que a gente muda depois da leitura.

    Ótimo texto!

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    Respostas
    1. Nossa, melhor colocação sobre a situação dela. Ela ficou presa ao tempo e presa ao Rufus.

      Rolei os olhos forte quando ele fez essa fala pra ela. Tipo, realmente, era muito mais fácil olhar pro tempo do ponto de vista dele e, mesmo sabendo que a Dana corria risco, ele não conseguia dar esse passo pra fora do privilégio. Ele conseguiu durar cinco anos lá enquanto ela precisou literalmente lutar todas as vezes.

      Muito obrigada pelo comentário, Sybylla <3 Muito feliz em ver vc por aqui <3

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  2. Ótimo texto. Fiquei com muita vontade de ler esse livro agora! <3

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