/body Escritora Marcia Dantas: As maternidades no cinema

30 de jan de 2018

As maternidades no cinema


As diferenças e semelhanças das mães nos filmes. 

[Atenção: Esse texto pode ter spoilers para quem não viu os filmes Lady Bird, I, Tonya e Three Billboards Outside Ebbing, Missouri]

Nas últimas semanas tenho colocado bastante esforço em conferir alguns dos filmes que estão marcando a temporada de premiações 2018. Sempre apreciei muito cinema, mas essa é a primeira vez que estou me aprofundando em maratonar esses filmes. E estou tendo algumas surpresas interessantes. 

E os últimos três filmes que assisti me trouxeram várias reflexões sobre a ideia de maternidade e como ela pode ser exercida de formas diferentes. Para quem estava acostumada a ver uma representação uniforme das mães da tela, é com satisfação que observo as variedades que estamos encontrando nessa temporada de premiações. 

Em I, Tonya, a LaVona de Allison Janney é uma figura que nos traz a antítese da maternidade clássica. Desde o começo da película encontramos uma relação abusiva com a filha, que impõe todos os tipos de exigência sobre o talento para patinar que a pequena Tonya demonstra desde cedo. Parece algo exagerado para nós, embora não seja difícil de se imaginar que coisas assim aconteçam com crianças prodígio. Pais e mães que enxergam o talento de seus filhos e filhas com obsessão e, em nome do sucesso, projetam rotinas exaustivas e exigentes para as crianças. 

Os abusos não param por ali. O filme nos deixa muito claro que as agressões psicológicas são acompanhadas de perto pelas físicas. A pequena Tonya aprende desde sempre a associar amor a violência (ainda que essas duas coisas não devam se misturar) e isso acaba se espelhando em sua vida adulta, quando ela começa a se relacionar com Jeff. E, mesmo nos momentos em que ela tenta se desvencilhar do marido, ela acaba voltando para ele em algum momento, como se aquela fosse sua sina. 

A violência também vira a forma de Tonya se expressar com as outras pessoas. Ela se torna agressiva em sua competitividade, emulando o que aprendeu desde sempre. Sua forma de se expressar com o mundo é o espelho do que viu desde sempre no relacionamento com LaVona. 

Violência também é algo que marca o filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, mas não especificamente no relacionamento entre mãe e filha. A gente vê que Mildred (Frances McDormand) e Angela possuiam um relacionamento tumultuado (de uma forma que até nos lembra a dinâmica mãe e filha em Lady Bird) e que fazem com que Mildred se arrependa das últimas palavras ditas antes do assassinato da filha. Mas não nos focamos nisso, e sim em como Mildred reage à perda da filha. 

É interessante perceber que todos mostram solidariedade a Mildred, mas (quase) ninguém consiga realmente demonstrar a empatia que talvez ela estivesse precisando para lidar com menos violência ao luto. Muitos são os que a acusam e poucos são os que conseguem compreender suas ações até extremas na tentativa de buscar justiça (ou vingança a certo ponto do filme). E é justamente no momento em que ela recebe essas mãos estendidas que se propõem a dar a compreensão necessária é que ela aplaca um pouco a revolta instalada dentro de si. 

Dentro de todas essas visibilidades diferentes da maternidade, a que vemos mais se aproximar da maternidade clássica é a Marion McPherson de Laurie Metcalf, mãe da personagem título de Lady Bird (que, de início, já demonstra sua rebeldia ao rejeitar o nome de batismo). 

E nem por isso deixamos de ter conflitos entre a Lady Bird e sua mãe, algo que permitiu uma grande identificação, devo confessar. Não apenas pelas brigas, mas também pela relação simbiótica que as duas possuem. 

Podemos ver que tanto Marion quanto Lady Bird possuem personalidades que entram em conflito, mas também necessidade de aprovação da outra parte. Claro que podemos ver isso com mais clareza por parte da filha mas, quando entendemos que o motivo para Marion não mostrar as cartas era mais o medo de reprovação do que por estar brava com Lady Bird, vemos que esse é um padrão que se repete das duas partes. 

E, dessa forma, ao vermos a separação e o rompimento da convivência constante que as duas tinham (e, antes disso, a briga), entendemos que uma precisa da outra. 

Aliás, ao comparar as três dinâmicas de mãe e filha, percebemos que essa separação é o que mais marca todas as partes. No caso de Tonya e LaVona, era necessária, e nem por isso menos dolorosa (especialmente quando Tonya percebe que a mãe, no fim das contas, continuava a mesma). No caso de Mildred, a perda de Angela faz com que ela perca o rumo, tentando procurá-lo na sua busca incansável pela vingança (e externalizada em suas ações explosivas e violentas). Já Marion tenta lidar com a síndrome do ninho vazio, sem saber (e descobrindo naquela ligação) que a separação também marcava sua filha. 

É interessante perceber que os filmes da temporada de premiações desse ano se destacaram por trazer personagens femininas distintas e que, em suas diferenças, trazem algumas coisas que fazem parte de uma linguagem universal e que nos traz identificação e entendimento. É bom ver mulheres que saem da unificação e que se distinguem. Já está valendo a pena essa temporada de premiações. 

E então, você viu algum desses filmes? O que achou?

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