12 de jul de 2016

Artistas, vagabundagens e afins

Fonte: Freepik
Na semana passada o Gregório Duvivier soltou esse texto em sua coluna semanal, em resposta a algumas coisas ditas pelo deputado Marco Feliciano (não que esse sujeito tenha que ser levado a sério) com relação à carreira de artista. E isso me levou a uma reflexão, que trago aqui para vocês. 
Ser artista no Brasil nunca foi algo bem visto para se falar a verdade. Convido você a escolher algum ator ou atriz conhecido, da geração de Antônio Fagundes para trás, e veja alguma entrevista em que essa pessoa conte algo sobre o momento em que contou para sua família que seria artista. A reação certamente não foi positiva, não só por ser algo que "não dá dinheiro" como por causa "das companhias que essa pessoa passaria a ter". Uma visão moralista e que, pela leitura do período, é resíduo do pensamento da Ditadura Militar.

Um dos malefícios desse período sobre as mentalidades até hoje é justamente essa demonização da profissão de artista, colocando a pessoa como subversiva e danosa de alguma forma, além das tendências políticas ofensivas (será que é por que a cultura influencia profundamente o pensamento e a reflexão sobre o mundo?).

Esse pensamento se suavizou um pouco, embora ainda esteja presente nas falas que vejo por aí. Mas outro cresceu e tomou corpo, fazendo parte de 10 entre 10 argumentações, que é justamente a visão de que o artista é vagabundo ou se aproveita do patrimônio alheio (como a polêmica da Lei Rouanet) para faturar em cima de quem "realmente trabalha".

Mas será que é assim mesmo?

Inspirada pelo texto do Duvivier, quis fazer justamente essa discussão, baseado no ofício de escritora e em minha experiência nos últimos três anos.

Como você bem sabe, sou professora e escritora. Na verdade, só me dei ao luxo de investir na segunda carreira quando consegui passar no concurso do Estado de São Paulo, para garantir meu sustento. Afinal, sempre soube que seria necessário (e ainda é) gastar muito antes de começar a me projetar de alguma forma.

Então meu tempo continua dividido entre as duas profissões, que amo igualmente, embora apenas uma me sustente. E, por mais que ame lecionar e agradeça o dia que caí na licenciatura de História, há momentos em que gostaria de ter mais tempo à escrita, afinal esse é meu sonho mais antigo.

Vivo em um país em que preciso trabalhar em um emprego para sustentar o outro. Em que literalmente pago para trabalhar e, por todos os problemas enfrentados no começo da carreira de escritora, optei por uma jornada independente, que significa me mover em todas as áreas do que implica essa carreira, inclusive na parte da divulgação (apanho disso até hoje). Editoras pequenas costumam ser armadilhas, e as grandes costumam cobrar o preço de um rim (a não ser que você tenha um público estrondoso de tão grande, o que ainda não é meu caso). Escrevo uma literatura considerada de nicho, o que me enfia em caixinhas e rótulos que tendem a me limitar.

E ainda sou considerada "vagabunda".

Ser artista no Brasil tem todas as barreiras e pouco incentivo, tanto na parte financeira quanto na moral. Não é fácil, mas a paixão pelas palavras e a vontade de fazer a diferença (quero falar disso nas próximas edições) me impulsiona. Posso dizer que acontece o mesmo com a profissão de professora, o que me deixa em um balaio de gatos... mas isso é uma outra questão.

Com toda essa mentalidade, considero que ser escritora no Brasil é um ato de resistência e continuo me colocando na linha de frente. Então, se é para abraçar a "vagabundagem", cá estou eu, praticando-a com força.

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