/body Escritora Marcia Dantas: A banalidade do mal ainda é relevante

6 de jul de 2016

A banalidade do mal ainda é relevante

Imagem de Hannah Arendt - Fonte: Filosofia em Foco
Se você acompanha a minha newsletter, deve se lembrar da discussão que fiz depois daquele show de horrores da votação do impeachment (já parece que faz tanto tempo, não é?). 

Gostei tanto do texto daquela edição que resolvi trazer para cá, para um canal mais aberto, esperando que você, que leu ou que ainda não teve acesso a esse conteúdo, possa ler e refletir.

Acho que uma das coisas mais chocantes desse processo (a qual repercute até agora) foi a homenagem feita pelo deputado do RJ Jair Bolsonaro ao General Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos bastiões da tortura durante o período da ditadura. Dê uma olhada nesse link

As técnicas de tortura que esse senhor aplicava em suas vítimas (e não importa sua opinião política, não se pode aceitar numa boa o que esse homem fazia com seres humanos) são dignas de filmes de terror. Só de ler sobre elas, sinto arrepios. 

Na ocasião tive uma conversa franca com meus alunos sobre esse assunto, classificamos esse general como "monstro". Nenhum deles tinha ouvido falar de Brilhante Ustra antes do discurso de Bolsonaro, mas garanto que não precisou muito para que eles ficassem completamente horrorizados e acabassem perguntando porque afinal ele tinha sido citado.

Nenhum deles achou certo o que Bolsonaro fez.

A pergunta que faço a vocês é: então por que tem tanta gente que bateu palmas para a memória trazida pelo deputado?
 
Refletindo sobre isso na época, lembrei-me de uma aula que tive no último ano da faculdade, quando meu professor relatou o julgamento de Adolf Eichmann, que foi acompanhado por Hannah Arendt e depois registrado em seu livro Eichmann em Jerusalém -  Um relato sobre a banalidade do mal (um livro que pretendo adquirir em breve e ler não tão breve assim). Linkei acima um artigo completo sobre os detalhes do caso Eichmann, mas o importante é saber que ele foi um dos homens mais importantes no comando dos campos de concentração nazistas.

Por que me lembrei disso? Porque Hannah Arendt e todos os que estavam presentes no julgamento de Eichmann se embasbacaram com a normalidade com que o homem relatava os fatos. Ele não negou nada, inclusive seu depoimento foi tão sólido que seu julgamento foi fácil de ser concluído. E isso intrigou Arendt.

Essa filósofa não é tão conhecida, então gostaria de compartilhar que ela era uma judia alemã que passou pela ascensão de Hitler e teve que escapar da Alemanha e se refugiar nos EUA (inclusive perdeu seu grande amigo Walter Bejamin pelo mesmo motivo, quando ele preferiu o suicídio a ser preso pela Gestapo). Uma teórica que desenvolveu grandiosamente a teoria do Totalitarismo, conceito usado até hoje para entender os regimes Nazista, Fascista e Stalinista (porque essa mulher incrível não poupava ninguém).

Então Arendt, que ficou intrigada com o julgamento de Eichmann, tentou entender o que acontecera ali e escreveu o livro citado acima. Ela entendeu que o mal praticado durante o Nazismo marcara seus praticantes com uma frieza que banalizava seus atos. A crueldade cometida nos campos de concentração era encarada por aquelas pessoas como algo necessário e, mais que isso, era o certo a se fazer por sua nação. Eles enxergavam os judeus, negros, ciganos, LGBT's e todos que tinham sido enfiados naqueles lugares inóspitos como seres humanos inferiores cuja existência era apenas um entrave para a Alemanha. A barbárie cometida não era enxergada por essas pessoas como barbárie, apenas o que deveria ser feito. Por isso Hannah Arendt desenvolveu o conceito de banalidade do mal.

Percebem por que quis trazer esse conceito?

Vejo nas pessoas que defendem o ato de Jair Bolsonaro o mesmo traço relatado por Hannah Arendt em Adolf Eichmann: há uma banalização do mal exaltado por ele. Brilhante Ustra fez barbaridades que embrulham meu estômago a cada vez que lembro, e que imagino que deveria fazer o mesmo com o resto das pessoas (fez com meus alunos), mas os aplausos enaltecem a barbárie, como se tudo tivesse sido completamente necessário e, digo mais: como se tivesse de ser repetido caso necessário. E os torturados, como a Presidenta Dilma, são visto como inferiores, ou melhor, entraves ao país, então sua eliminação é encarada como dever patriótico. Afinal, alguns dos cartazes que desfilaram nas manifestações pró-impeachment e que pediam o retorno da ditadura não surgiram do nada.

Brilhante Ustra e seus adoradores são vistos como heróis da pátria, quando deveriam ser enxergados como monstros.
 
E como se banaliza o mal?
 
Ontem assisti ao debate feito entre o deputado Marco Feliciano e Felipe Neto sobre as questões de gênero e sexualidade e, lá pelas tantas, o deputado informou que um beijo gay não é algo natural. Felipe Neto então afirmou que aquela fala era homofóbica. O deputado negou que o era.
 
Também passei um tempo refletindo sobre isso: o que faz uma pessoa fazer esse tipo de comentário e achar que não foi homofobia?

Na sequência, Marco Feliciano perguntou se ele agredia fisicamente aos gays (porque né, não existe outra sexualidade além dessa, mas não quero entrar nesse mérito agora) e por isso não era homofóbico. 

A banalidade do mal dissolve a importância dos pequenos atos preconceituosos e opressores, que se repetem no dia-a-dia, dando peso apenas quando acontece atos de violência física. Mas precisamos pensar que, quando a violência chega a esse ponto, que isso é apenas a ponta do iceberg

O preconceito se esconde na rotina das palavras e atos que o demonstram. Glória Maria fez uma entrevista no TV Mulher e falou muito bem sobre isso. Não é apenas a surra que causa a opressão, mas também a violência psicológica diária, a qual acaba sendo muito mais naturalizada e faz com que as pessoas vejam como "não foi nada de mais".

Por isso não desisto de meu trabalho e militância, mesmo em tempos como esses. Apenas o entendimento da História e o constante debate sobre as questões de gênero, sexualidade, etnia, feminismo, entre outros, derruba esse véu que banaliza a barbárie e a desumanidade. Países como Argentina e Chile, que passaram por processos de ditadura na década de 1960, não deixaram barato e colocaram os nomes corretos nas coisas. Olham para trás e veem o horror sofrido, tentando garantir que este não volte a acontecer.



Quero chamar vocês a enxergar essas questões e a banalidade por trás das pequenas coisas, que naturalizam e fazem com que as pessoas não tenham sensibilidade para as barbaridades como o depoimento de Bolsonaro. Enquanto tiver alguém se indignando, há esperança.

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