4 de jan de 2016

Por que uma antologia feita apenas por mulheres?


Quem me acompanha periodicamente sabe que fiz a oficina da Clara Averbuck no ano passado. Falei um pouco disso no meu texto Ser escritora e seus desafios e como fazer essa oficina me abriu os olhos para o que é ser mulher no mercado literário.

Desde então tive vontade de fazer um projeto exclusivamente para mulheres e essa oportunidade finalmente surgiu (falarei um pouco sobre ele amanhã). Mas algumas pessoas podem se perguntar: por que, afinal, uma antologia apenas para mulheres?

Clara respondeu quase essa mesma pergunta quando começou a sua oficina, nesse texto. E, baseado nisso, quero desenvolver meus argumentos. Vamos a eles:

1. Mulheres são desencorajadas a falar e se expor;


A criação feminina imposta pela sociedade é diferente da masculina. Somos ensinadas a sermos delicadas, sensíveis, educadas, essa última parte incluindo não falar alto ou não tentar se impor. Temos nossas iniciativas podadas e perdemos o contato com quem realmente somos, como fala Clarissa Pinkhola Estés em seu Mulheres que Correm com Lobos

Essa perda causa insegurança e hesitação que acabam por nos limitar. 

Ao criar um ambiente feito apenas por pessoas do gênero feminimo, especialmente com o objetivo de produção intelectual (onde a confiança é algo fundamental), damos a chance a que essas mulheres não se sintam intimidades e sejam estimuladas, afinal estão cercadas por pessoas que possuem as mesmas limitações.

2. Homens, consciente ou inconscientemente, podem podar as escritoras;

Assim como mulheres são estimuladas a se retrair, homens são ensinados a falar e perseguir o sucesso, ou terão falhado em sua existência. Tudo isso faz parte das armadilhas da sociedade patriarcal, que estabelece papeis determinados a todos e não permite que os indivíduos as subvertam. Ou seja, enquanto não derrubarmos essa sociedade patriarcal, continuaremos a sofrer as duras pressões de suas terríveis regras. 

Um ambiente misto, com homens e mulheres, pode ser muito nocivo à essas últimas que, já habituadas por sua criação a se calar, além de sofrerem constantemente da Síndrome do Impostor, acabariam por se retrair ainda mais diante da presença masculina. Não, nós não temos que separar a sociedade. No entanto, para certas coisas, criar um ambiente seguro pode ser o melhor estímulo para uma escritora.

Recentemente tivemos o caso da cineasta Anna Muylaert e situação vivida com os também cineastas Cláudio Assis e Lírio Ferreira (leia aqui). O posicionamento de Muylaert foi exemplar e inspirador, mas não podemos eliminar o fato de que essa situação ocorreu porque ela era uma mulher cercada por homens. 

3. Mulheres ainda são consideradas "musas" e não agentes;


Eu acompanho o Halestorm a cerca de um ano e meio e sou completamente fã da vocalista Lzzy Hale. Ela é a alma da banda de rock e tem uma das vozes mais marcantes da atualidade. 

Calma, estou falando de rock, mas tem um objetivo. Ano passado, o Halestorm se apresentou no palco Sunset do Rock in Rio e impressionou muita gente com seu som. A energia da banda, e especialmente da vocalista, impressionou as pessoas que ainda não os conheciam. Mas qual foi a reportagem que saiu? Essa, sobre ela ser musa do festival de música. 

Por favor.

Lzzy é uma mulher belíssima, ninguém pode negar isso. Também temos outros artistas que vieram ao festival e que possuem determinados atributos físicos que chamam a atenção (como Adam Levine, vocalista do Maroon 5, e que participou na edição de 2011). Por que não saíram reportagens elegendo esses caras como "musos"? Porque são homens e as pessoas perguntam e reparam em outras coisas além do visual. 

Quando trazemos isso para a literatura, é fácil entender algumas coisas. A FLIP falha ano após ano em dar espaço às mulheres escritoras e ainda usa essa história de musa sem parar, legando mulheres ao posto de objetos, coisas que tem que ser reparadas e que não podem agir por si mesmas. 

Minha experiência na oficina e a convivência com outras colegas com aspirações literárias me mostra que conseguimos encorajar umas às outras, justamente pelo que falei no primeiro tópico: nós nos entendemos por passar pelo mesmo. Não seremos musas de ninguém num meio exclusivamente feminino. 

Esses foram os motivos que me levaram a optar por fazer esse projeto, do qual falarei com vocês amanhã. Já deixo convite às mulheres que leem meu blog. Caso queiram saber um pouco mais, é só perguntar e/ou esperar pela postagem.

4 comentários:

  1. Aplaudindo esse post!
    Ilustrou muito bem a questão da musa. Muitos homens (e até mulheres) reclamam que o posicionamento feminista impede que a beleza da mulher seja admirada. Longe disso. Como você falou, o problema é quando apenas a sexualização, a aparência física, é levada em consideração acima de outros fatores muito mais relevantes. Esse exemplo do Adam Levine foi right on the spot!
    Lembrei logo daquelas matérias que fazem sempre que tem Copa ou Olimpíada, do tipo "confira as musas que participaram dos jogos".

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Ain, Marcia, cê sempre arrasa nos posts, mana <3

    Um dia, comecei a reparar a minha estante e tomei um susto ao perceber que havia poucos livros escritos por mulheres. Você não colocou no post, mas percebo que mulheres são mais voltadas aos gêneros românticos, como o sick lit, enquanto homens são mais voltados a uma narrativa com mais ação. Isso reflete bastante a nossa criação, pautada a romantizar tudo. (Nada contra sick lit, foi só uma observação).

    Eu também odeio essa coisa de "musa". As mulheres sempre são objetivadas, é impressionante. Podemos ver isso mais claramente no tapete vermelho, pois por mais que o trabalho de uma mulher seja incrível, sempre a primeira pergunta dos repórteres é sobre sua roupa e maquiagem aff...

    Amei as sua colocações, seus argumentos são sempre sucintos. Ahazô <3

    Abraços,
    http://eueminhacultura.blogspot.com.br/

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  4. Marcia, seus argumentos são ótimos, assim como a Karina disse. Vocês nos faz pensar em cada coisinha que acontece nesse mundo e nem precisa de muito esforço, é incrível. A objetificação da mulher é algo muito revoltante, realmente. É ainda mais revoltante que tenhamos que lutar tanto para mudar esse pensamento na cabeça das pessoas, mas ainda bem que lutamos.

    E ah, apoio totalmente o projeto de vocês, com certeza será (e já está sendo) gratificante.

    Beijos,
    :)

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