2 de jan de 2016

As cartas que nunca enviei #1: Ano Novo

Começando o ano de 2016 com a primeira carta do projeto As cartas que nunca enviei.

Importante que vocês saibam que as cartas não serão publicadas em ordem cronológica. Elas podem vir em qualquer momento da vida da Sabrina. Aos poucos elas vão montar um quebra-cabeças.

Essa tem como tema "Ano Novo". Espero que gostem.


#1 Ano Novo

 

Querida Amanda,

Ano Novo é sempre um daqueles dias que mais sinto saudades de você.

Faz pelo menos uma hora que os fogos acabaram e estou aqui, na janela do meu minúsculo apartamento, olhando para o céu, uma taça de vinho na mão e nenhuma disposição para ir dormir. Eu devia ter ido à festa do pessoal do trabalho e assim teria distraído a mente com o barulho incessante das pessoas, sempre tão entusiasmadas com esse tipo de evento. Honestamente? Depois de 40 réveilons vividos, tenho a certeza que esse ritual de passagem não passa de um símbolo. Não há mudança mágica quando o relógio começa a marcar meia-noite.

Você certamente diria que estou em meu estado mais amargo e rabugento. E eu teria de concordar com você, essa é a mais absoluta verdade. Estou sozinha nesse apartamento justamente para não contaminar ninguém com esse péssimo humor. Deixe que as pessoas normais aproveitem as esperanças e superstições sem ninguém para atrapalhá-las.

E como foi seu Ano Novo? Correu tudo bem?

As coisas por aqui estão bem também, dentro do possível. Minha rotina acontece sem grandes surpresas. Estou me destacando bem na nova posição dentro da empresa na qual trabalho. Levou algum tempo, mas finalmente provei que sou uma profissional dedicada e eficiente. Às vezes é difícil, trabalho num ambiente quase dominado por homens e você sabe bem como isso pode ser hostil para uma mulher. Lutei muito para quebrar certas barreiras e agora estou colhendo alguns frutos.

Voltar para casa e vê-la tão vazia ainda é o mais difícil.

Não precisa falar nada, não quero que ele volte. Muitas coisas aconteceram e já não é possível que a gente viva juntos, debaixo do mesmo teto. Eu deveria ter feito isso antes, quando você me disse, mas hesitei e exatamente por causa disso: tinha medo de como as coisas seriam quando me visse sozinha. Não há arrependimentos quanto à minha decisão, pode ter certeza, a verdade é que foi fácil vê-lo embora. As únicas dificuldades estão em voltar a se acostumar com o silêncio e principalmente com o julgamento das pessoas.

Como você fez para ficar todo esse tempo sozinha? Não sentiu o peso dos olhares das outras pessoas que, mesmo dizer nada, demonstram toda a pena do mundo? Por que elas acham que não ter um homem na vida é a pior coisa que pode acontecer com a gente?

Não penso na ausência dele, garanto a você. Já não havia amor de nenhuma das partes, apenas o comodismo de tanto tempo de relacionamento. Na verdade senti até um alívio e uma dose de liberdade.

Mas hoje foi difícil. Não por causa dele, mas por ter sentido a solidão real pela primeira vez. Esse foi o primeiro Ano Novo que passei sozinha.  

Foi nesse momento que quis ligar para você e dizer que desejava que estivesse aqui, segurando minha mão e dizendo tudo vai ficar bem. Que nós ainda podemos fazer tudo dar certo, mesmo depois de tanto tempo, quando somos pessoas tão diferentes. Por um instante me iludi – provavelmente foi o espírito de Ano Novo querendo me tapear -, mas então voltei da fantasia e coloquei meus pés na dura realidade. Era melhor deixar você por aí e encarar uma garrafa de vinho ao invés de dizer bobagens.

Acho até que não vou mandar essa carta porque já me excedi demais nessas palavras. Não vou dizer o que deveria ter dito a você tanto tempo atrás. Muito já passou, não é? Não há como voltar atrás.

Melhor terminar por aqui. O vinho começou a agir e vou tentar dormir um pouco. Amanhã tento escrever uma versão sóbria dessa carta, ou talvez só ligue para dizer um singelo “Feliz Ano Novo”. Preciso mesmo ouvir sua voz.

Até daqui a pouco.

Com amor,

Sabrina.

9 comentários:

  1. Sabrina me deixou muito curioso e interessado na vida dela e na relação dela com Amanda. Animado com o que mais vem por ai xD

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    1. Bom que vc ficou curioso, isso me anima bastante <3 Prometo que vou caprichar cada vez mais.

      Obrigada sempre,Lenonzito :hugluv:

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  2. Oi, moça!

    Eba, cartaaaas! <3333
    Fico feliz que a primeira tenha sido escrita logo agora.
    Achei bem legal você ter inserido uma destinatária mulher, porque contrapõe bastante com a parte que a Sabrina diz como é hostil trabalhar num ambiente majoritariamente masculino. É tipo um laço invisível, mas que promete muito.

    "Por que elas acham que não ter um homem na vida é a pior coisa que pode acontecer com a gente?" - é o que eu também me pergunto. Aprendi de diversas maneiras (muito ruins ou constrangedoras) o quanto não se interessar tanto assim na minha felicidade por causa de outra pessoa pode ser estranho. Até hoje me sinto estranha quando digo "Não me importo com isso" quando me perguntam se namorado. Eu me importo, claro, mas não é o objetivo da minha vida. Acha muito doido quando a vida de alguém se resume à namorada/o. Não é nada saudável viver através de terceiros... E a felicidade pode ser conquistada de inimagináveis e incontáveis formas, então, por que acredita-se que só com um relacionamento seremos completas (e essa definição é beeeem ruim pra quem nunca precisou de alguém e que gosta da solidão como eu). Mas, enfim, estou aqui divagando, desculpa.

    Apenas espero conhecer mais e mais da Sabrina através das palavras dela! <3
    Ah, algo que me ocorreu durante toda a leitura: que idade tem a Sabrina? Ela não parece adolescente e me peguei recordando muito da Luciana! Espero mais cartas em breve! :)

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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    1. Heeey \o/

      Eu tive uma ideia pra ano novo esses dias. Não era essa exatamente, transportei ela pra outra que vou fazer, mas eu queria algo com esse tema e que fosse reflexivo pra Sabrina.

      Eu tbm gosto da ideia dela conversar com a Amanda. Além de eu estar muito interessada em contar a história dessas duas, gosto da ideia de fazer com que elas conversem como duas melhores amigas, pq só uma mulher entende o que a outra está passando, e fica mais fácil trabalhar questões como essas.

      Como te falei no chat, aqui ela tem 40 anos, mas quero pegar vários momentos e faixas etárias na vida dela. Hahaha talvez ela pareça, talvez não, vamos ver.

      Obrigada por comentar <3

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  3. Hey, Marcia (sempre que vou escrever "Marcia" coloco um acento agudo no "o" rs). Cê sabe o tanto que eu tava ansiosa pra ler a primeira carta, né? E eu já disse o quanto amo a forma como você narra uma história? Bem, já comecei me identificando com a Sabrina, essa minha passagem de ano foi uma coisa bem normal, tipo, um dia comum mesmo e tenho a mesma visão que dela sobre a passagem de ano. Só notei que era 2016 às 01:30, porque ouvi os sons dos fogos de artifício. Tava tão entretida com o segundo episódio da segunda temporada de The L Word que nem notei a passagem do tempo. E eu entendo, também, o que a Sabrina passa, só quem convive em um ambiente "dominado" por homens entende essa aflição... E lá vou eu falar de um personagem como se fosse gente de verdade rsrsrsrs.

    "Não sentiu o peso dos olhares das outras pessoas que, mesmo dizer nada, demonstram toda a pena do mundo? Por que elas acham que não ter um homem na vida é a pior coisa que pode acontecer com a gente?": e outra vez entendo exatamente o que ela está dizendo, não é fácil, dá vontade de mandar todo mundo ir catar coquinho, para não falar coisa pior rs.

    E eu já quero outra carta, viu? Posta logo, quero conhecer mais essa personagem.

    Abraços,
    Karina do blog Eu e Minha Cultura.

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  4. TIAAAAA você sabe que é sempre um prazer ler as suas coisas, né, mas essa carta, nossa, essa carta me pegou feio aoishapokspoajspoa pq é sempre assim que a gente se sente no ano novo, né como se uma grande mudança fosse acontecer de 23:59 pra 00:00, como se todas as dores e tristezas tivessem ficado pra trás e você tivesse ganho uma chance de renascer e começar de novo. Mas nunca é assim né e a Sabrina sabe disso como ninguém. Ela tá sem esperanças e meio amarga, bebendo em casa sozinha pq não quer contaminar os amigos com o mau humor. Ela tá sozinha olhando para o ano que acabou de entrar de forma cética, e escrevendo uma carta que ela nunca vai mandar, talvez por saber que ela nunca vai mandar, é que ela consiga ser tão honesta assim. E agora to super curiosa pra saber mais sobre a sabrina e a amanda! Quero mais, tia, me dá mais pfvr

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  5. Isso me lembra tanto, tanto, tanto 'Para Todos os Garotos que já Amei', o livro é um amorzinho de tão fofo e a sua carta ficou incrível. Consegui sentir cada peso, cada emoção, cada angústia, cada pedacinho de sentimento que a Sabrina colocou para escrever a carta para a Amanda.

    Beijos,
    :)

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  6. Maninha, omg, já adorei demais esse começo <3 adorei essa ideia de acompanhar a vida da Sabrina através de cartas, e also, o título já me agrada mto. Adoro as coisas singelas e tranquilas q vc escreve, q sempre tem uma grande profundidade por trás. Tô mto curiosa pra saber mais detalhes sobre a vida da Sabrina, já me apaixonei pela personagem logo de cara. Seus personagens são realmente mto apaixonantes. Obrigada por nos proporcionar mais essa beleza <3

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  7. Olá, confesso que fiquei curiosa sobre Sabrina e Amanda, quero continuar acompanhando as próximas cartas ;)

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