/body Escritora Marcia Dantas: A era dos escritores a serviço dos leitores

17 de jan de 2016

A era dos escritores a serviço dos leitores

Atualmente vivemos uma realidade de fácil acesso aos nossos escritores favoritos, ou pelo menos àqueles que queremos acompanhar de perto. Esse blog por exemplo, ele é um canal aberto para vocês que desejam me conhecer um pouco mais ou acompanhar o que ando aprontando por aí. O quão maravilhosa é essa sensação?

No entanto essa tem se mostrado uma faca de dois gumes, pelo menos para quem está do lado de cá. Ser escritor hoje tem se mostrado cada vez mais uma tarefa complicada, onde paira sobre sua cabeça a eterna cobrança. E é sobre isso que quero falar hoje.

Durante essa semana vocês devem ter esbarrado na notícia de que George R.R. Martin não terminaria o próximo livro de Crônicas de Gelo e Fogo antes da estreia da temporada nova de Game of Thrones (série que larguei na última temporada por motivos de "não aguento mais o machismo exalado pelos showrunners e seus espectadores em geral). Faz bastante tempo que a eterna saga do escritor se estende e as piadas sobre sua morte vir antes do final da história já se tornaram recorrentes por onde quer que você vá.

A revolta dos fãs gerou um declaração de Neil Gaiman a respeito. Você pode acompanhar o que ele disse nesse link. A grande questão é que, independente se estou ligando ou não para essa situação, tudo isso gerou de minha parte uma reflexão: até que ponto essa ligação direta com os leitores faz bem ao escritor?

Claro que essa não foi o único motivo que me fez escrever essa postagem. Ando continuamente pelos grupos de escritores e leitores e, entre eles, frequento um grupo de compartilhamento de histórias entre escritoras amadoras e suas leitoras. E, por um acaso, tropecei em uma reclamação aberta de uma leitora que estava indignada com a falta de atualização das histórias que acompanhava, seguida por uma ameaça de que deixaria de favoritar as histórias que ficassem a um x tempo sem ser atualizadas. 

Estou falando aqui de duas situações diferentes: um escritor mundialmente conhecido, ganhando rios de dinheiro, e escritoras amadoras que nada recebem além de comentários de suas leitoras. Em comum, leitores e leitoras que desejam que os escritores estejam a seu favor. 

Lembram da época do orkut, quando o escritor ou escritora falava que só postaria o próximo capítulo se tivesse um determinado número de comentários? Pois é, para mim é a mesma coisa e eram justamente essas histórias que eu fazia questão de não acompanhar.

Não me entendam mal, amo esse contato direto com meu leitores. É um prazer imensurável encontrar pessoas que apreciem o que escrevo e que me acompanham. É um estimulante incalculável, podem ter certeza. Porém, gosto de pensar em nossa relação como uma companhia mútua (vocês me acompanham em minha jornada e eu compartilho minhas loucuras com vocês) e não como uma relação de cobranças e ameaças. 

Estamos em um momento em que a arte se torna cada vez mais comercial e capitalista, perdendo sua característica de apreciação. No primeiro texto da coluna As vantagens de ser uma escritora falei um pouco para vocês o que achava sobre a inspiração e como, quando buscamos a profissionalização, ela deve ser domada e utilizada dessa maneira. No entanto, mesmo quando falamos de um trabalho, não podemos esquecer que ainda é uma arte e, por mais que esteja sendo vendida, não pode perder essa beleza. Senão, para que existe a arte?

E vocês, o que acham disso?

3 comentários:

  1. Minha opinião é que: Escritores tem seu tempo para escrever, sua inspiração, todo um conjunto de fatores, esse pessoal que quer que escreva logo, que se não atualizar não vai mais favoritar, as vezes nem lê.
    Existe uma coisa que se chama empatia e é sempre bom usar. É só se colocar no lugar do escritor e pensar como se sentiria.

    Muito bom o post :)
    ótima semana
    bjo

    http://tatianecdesouza.blogspot.com.br/

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  2. Escrever é algo tão intimo que eu não me sinto bem ao compartilhar isso com alguém. Acaba que quando eu compartilho, as pessoas se sentem no direito de me pressionar ou coisa parecida. Cobranças, seja o que for. É um processo a ser feito só, e quando você já tem outras obras e pessoas esperam continuações, imagino que a tendência seja piorar. Acaba que você não consegue se entregar por inteiro naquilo e pode não ficar tão bom quanto esperam.

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  3. Confesso que antes eu achava que tinha que ter essa obrigação do escritor com o leitor, mas era porque eu exigia isso dos escritores que eu acompanhava. Mas com o tempo, quando fui me envolvendo mais com a escrita, percebi que não é bem assim. Uma série de coisas acontecem com nós escritores. Tem aqueles dias que estamos super inspirados, e outros, nem tanto assim. Tem aqueles dias que estamos super empolgados pra continuar a história, mas no dia seguinte podemos lutar pra escrever míseras 10 palavras. Ou pode haver também um longo período de crise criativa, em que passamos meses ou até anos sem escrever, até achar aquilo que vai nos trazer a inspiração de volta. Ou mesmo as obrigações do dia-a-dia, que colocamos em primeiro lugar e isso acaba nos afastando da escrita. Então, não é fácil esse ramo. A opinião dos leitores é muito importante, mas eles também têm que compreender que temos nosso próprio tempo. Não é todo dia que sai uma obra-prima prontinha pra eles lerem. Então concordo que não deve haver essa obrigação, ainda mais já nos cobramos demais pra produzir algo bom, e uns se cobram mais que outros.

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