/body Escritora Marcia Dantas: Por que os jovens são tão temidos?

2 de dez de 2015

Por que os jovens são tão temidos?

Foto de Marlene Bergamo

Ao lado dos jovens está o frescor da idade, os olhos livres dos males do mundo, a vontade e a força de mudar e a esperança, que sempre impulsiona, mesmo diante dos obstáculos mais difíceis de serem derrubados. Tudo isso concede a eles uma força que gera temor. Eles são fortes e destemidos, carregando a coragem como uma bandeira. Começaram agora a enfrentar as longas batalhas da vida e trazem consigo renovação. 
Quando olhamos para a História, podemos ver como todas as características enumeradas acima se tornam um motor para revoluções. São deles que parte as iniciativas e a faísca que colocam fogo nos movimentos revolucionários. A década de sessenta, por exemplo, uma das mais revolucionárias de todos os tempos, foi marcada por vários movimentos jovens. Eles foram capazes de mexer com vários aspectos e virar a sociedade de cabeça para baixo. Foi difícil calá-los. Muito se precisou fazer para que a força dessa geração fosse parada e, ainda assim, não podemos ignorar que aquele momento reverbera seus efeitos até hoje.
Comecei meu texto destacando a força da juventude nas revoluções justamente por ter sido essa a reflexão feita por mim no dia de ontem, enquanto acompanhava as notícias referentes às manifestações feitas contra a reorganização e ao método de coerção (que recebeu o interessante nome de "diálogo") utilizado pelo atual governo de São Paulo. A força bruta, a intimidação e as bombas de gás foram os modos vistos para conter a força contida nos jovens que protestam contra o fechamento de 94 escolas em todo o Estado. Eles certamente geram tamanho temor a ponto de causar essa reação violenta. 
Os jovens causam temor porque não aceitam qualquer argumento. Posso falar isso com propriedade porque trabalho com eles todos os dias. Eles questionam, perguntam, testam e duvidam. É difícil passar por sua percepção, pois tudo observam e não hesitam em perguntar. Eles desejam saber e não sossegam enquanto não recebem a resposta, e não é qualquer uma: tem de ser satisfatória. Falácias e factoides são percebidos facilmente e respondidos à altura. Foi isso que eles fizeram em São Paulo e, como não se conformaram com as respostas rasas dadas, começaram a reação. 
Talvez seja preciso conhecê-los, ouvir seus pedidos e abrir o coração a eles. Suas vozes insistentes fazem pedidos simples. Eles bem sabem o valor de suas escolas para as comunidades em que vivem. Não, isso não é questão de apenas mudar o caminho, fazendo uma trajetória mais longa: a escola é o ambiente que eles conhecem, onde se refugiam e o lugar em que encontram os amigos. Muitos deles tem muito mais ambiente na escola que na própria casa. Ali eles tem contatos com os amigos e alguns deles fazem a única refeição ali. Eles conhecem cada corredor, cada rachadura, cada cadeira, cada lanche da cantina. Como pedir que abandonem o lugar que amam? Como tirar daquela comunidade a escola que lhe concede alguma identidade? Convido vocês a perguntar em qualquer bairro da periferia qual a importância da escola mais próxima. A resposta será surpreendente.
Eles pedem para serem ouvidos. Que não fechem as portas para suas necessidades. Eles não podem ficar quietos, há aquela força que os impulsiona a dizer, questionar, cutucar. É dessa forma que os jovens conseguem mudar o mundo. 
O atual  governo demonstra que não sabe ouvir os jovens. É mais fácil temê-los e calá-los que aprender juntamente com eles. Uma lição que aprendi esse ano, depois de ver minha voz abafada pela greve do começo do ano:  ainda não calaram as vozes dos alunos do sistema público da educação paulista e são eles que se levantam agora. 
Já que não há resposta do governo, a pergunta que faço é: até quando a população de São Paulo fechará os olhos e aceitará qualquer argumento dado nos veículos de imprensa, claramente tendenciosos? Não, eles não são vândalos ou marginais, vagabundos ou desocupados ou qualquer outro nome que queiram colocar, mas sim o nosso futuro. E eles gritam para mudá-lo.  Podemos parar de temê-los e unir nossas vozes às deles?

Um comentário:

  1. Oi Marcia, tudo bem??? Adorei sua postagem. Realmente os jovens são temidos. Nossas distopias mostram muito isso. E a nossa realidade também. Jovens são muitas vezes vistos com maus olhos, como rebeldes, arruaceiros e tudo o mais. Quando na verdade, estão fazendo o que os adultos deveriam fazer. Questionando, o que os pais não percebem.
    É muito triste toda essa situação de SP né?
    Aqui na minha cidade, também estamos com alguns problemas. Há uma diretora que está comprando votos, falsificando documentos e usando contas sociais dos concorrentes de eleição para continuar no cargo. E a garotada está enlouquecida. Fazendo protestos, mandando documentação para a CRE e tudo o mais. Mas a CRE também é feita de adultos que temem os jovens. E aí, o que fazer? É mesmo uma pena, que a voz do jovem, ainda que fale o certo, não tenha o mesmo peso de um adulto :(
    Um beijão
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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